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Outra sexta-feira em que eu não vou para o bar: e você?

Universa

17/07/2020 04h00

Imagina essa cena com um monte de gente brigando pela saidera? (Pexels)

Os abstêmios que me perdoem, mas não tem coisa mais gostosa que o boteco. Sexta-feira, 19h e tantas, eu atravessando o Largo da Batata apressada. Um olho no relógio, outro no skatista empolgado que pode dar no meu tornozelo com seu meio de transporte. Chego finalmente no bar, dia cheio, metrô cheio, um beijinho no garçon que me chama pelo nome, festeja minha presença e aponta minha mesa. Meus amigos já vão enchendo meu copo sem mudar o assunto da roda. Que alívio. Se existe um propósito maior que o #sextou para atravessar a semana, desconheço. Quer dizer… Estamos em julho de 2020 e hoje, de novo, não vai acontecer nada disso.

Vamos falar a verdade: ninguém aguenta mais beber no Zoom. Eu mesma que sou a maior entusiasta desse tipo de coletividade etílica devo admitir que não criaram uma estrutura decente online para replicar adequadamente as delícias do barzinho. Se você é de tecnologia e está buscando essa fórmula, posso participar do brainstorm. Mas já vou duvidando que haja online ambiente com poluição sonora na medida, poluição no banheiro desmedida, desconfortáveis cadeiras de lata ou plástico extremamente aprazíveis, sujos copos perfeitos, garçons desatentos e amorosos na mesma proporção. O bar é magia, fumaça e música ruim. A saideira é sempre pouca e a conta é sempre alta. Do bar, qualquer defeito é elogio.

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Como eu vou chamar o Marcos de canto no meio da roda para falar do texto do Matheus sobre a letra de Perfeição? Ninguém em bar nenhum nunca quis conversar com a gente sobre Legião Urbana, nem depois das 2h da manhã. Não vai ser no Zoom que essa palestra vai emplacar sem entediar muito nossos outros amigos. Posso chamá-lo no Whastapp, mas quem aguenta conversar por mensagem ainda? Isso é papo pra bar, pra fumar um cigarro no meio fio, pra filosofia barata. No máximo, mando o link do texto, ele responde com um coração. Textaço, Pichonelli, mas, ai, que saudade do boteco. Desce um balde.

Esse tipo de estabelecimento é o lugar mais propício para qualquer tipo de papo. Entre as mesas mal distribuídas, há espaço para futebol, aborto, política, fofoca sobre quem não foi. Agora, online, temos três assuntos básicos: lives do Átila, pão caseiro e planos negacionistas de furar a quarentena (sempre abortados aos sábados de manhã na consciência da luz do Sol).

Eu sei, eles, os bares, esses pedacinhos de paraíso, estão abertos em São Paulo. Mas tenho cá dentro de mim uma ética que diz que meu tipo de bar não cabe no novo normal. Não se bebe de máscara, pra começar. E os lugares que frequento nunca primaram muito pelo quesito limpeza: um boteco sujo perde o predicado se estiver limpo. E mais grave que isso e com nenhuma graça: tem gente morrendo porque outras pessoas estão como eu, com saudade da boemia. Mas, diferentemente de mim, estão saracoteando pela rua sem máscara e passando a madrugada na esbórnia, como se a pandemia tivesse acabado. Não tem nenhum cabimento.

Então seguirei no ritual das últimas semanas: fecho o notebook lá para as 19h, tomamos alguma coisinha e Zoom. Não dá para falar mal do aplicativo que trouxe meus amigos para a sala de casa em segurança durante quatro meses enquanto meu país demoronava — e segue desmoronando. Eles me contam a semana deles, eu conto a minha. Lá pras 23h já estou dizendo que esse #sextou foi a melhor coisa da semana. O papo segue, o vinho acaba e, se ninguém se tomar cuidado, qualquer dia eu emplaco uma discussão sobre Legião Urbana. Mas eles sempre me impedem. O novo normal não precisa ser tão diferente dos velhos rituais que nos fazem bem.

A gente pode continuar essa conversa no happy hour do Instagram.

Sobre a autora

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo”, na “Contigo!” e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso para atravessar a era digital com um pouco menos de drama. Sororidade e respeito ao próximo caem bem pra todo mundo.