PUBLICIDADE

Topo

Eu também estou com saudade do shopping. Você não está?

Luciana Bugni

19/06/2020 04h00

Precisa mesmo ir até o shopping só pra mexer no celular? Imagem: Lucas Lacaz Ruiz/Estadão Conteúdo

Parece que foi em outra vida. No dia 14 de março, saímos de casa antes do almoço. Fomos para o shopping, onde almoçamos, compramos um presente, fomos ao mercado. Passamos num posto de gasolina para abastecer e falamos sobre o show da banda de uns amigos, que seria no dia seguinte. Decidimos que não iríamos. Era nossa primeira renúncia em nome da segurança contra o coronavírus.

Meu marido teria o lançamento de seu livro no Rio, na semana seguinte. Seria uma boa ideia ficar fechado num grande espaço com a torcida do Flamengo? Não era metáfora sobre multidões: o lançamento seria dentro do clube da Gávea, com presença de jogadores, aberto ao público. Foi a primeira vez que perdemos um compromisso de trabalho para o coronavírus.

Veja também

O sábado 14 de março continuou. Fui ao piquenique de uma amiga em uma praça, encontrei por acaso outra amiga estilista que vendia roupas de sua grife em uma feira de roupas ali na rua. Meu filho literalmente passou o dia rolando no chão, com o pé sujo de infância. Eu abracei desconhecidos. Já sabia que não podia, mas né, que que tem?  O pessoal comprou cerveja no mercado e bebeu diretamente na lata — sem lavar, claro. Ajudei as crianças a tomarem picolé e depois lambi os dedos. Foi a última vez que meu filho viu outras crianças.

Fomos pra casa depois de um dia longo e cheio de comportamento impróprio. E aí eu bati a porta desse apartamento naquela madrugada e nunca mais saí.

Todo mundo tem uma história de liberdade e contravenção dessa momentos antes do confinamento. É por isso que sim, dá uma saudade danada do shopping. A repórter do TAB Letícia Naísa explicou direitinho esse sentimento. Estava inserido em nossa rotina antes e depois de coisas bobas que costumamos fazer. Opa, costumávamos. Mas vem cá: sentir essa saudade justifica fazer fila em frente ao shopping para entrar e dar umas voltas? Não consigo achar expressão mais educada pra dizer que me soa burrice.

Passear num grande centro de compras infelizmente não fará com que entremos num túnel para aquele dia 14 de março. Nem fará com que as perdas de pessoas, eventos, dinheiro e empregos dos últimos meses se amenize. A verdade tristíssima é que aquele dia não vai voltar agora. Se aglomerar em frente a qualquer lugar, infelizmente, só acentua essa demora.

Então, quando bater aquela vontade de dar uma volta, saiba: é normal. Aí você pega essa vontade e senta no sofá, abre o celular, compra de pequenos produtores pela internet. Ou faz um bolo, ou tenta fazer tricô. Só não vai correr risco à toa, tá? Sobreviver é bem mais legal.

Vai passar — eu não sei muito bem se acredito, mas dá um alívio ao dizer. E quando passar, vou usar a blusinha que comprei da grife da minha amiga (A Fine Mess, um trocadilho bom com aquele sábado) na última vez em que estive na rua.  Quero passar o dia inteirinho ao ar livre, com meus amigos, meu filho brincando. Não vai dar nem tempo de passar no shopping.

Eu gosto mesmo é de gente. Mas você pode discordar de mim no Instagram.

 

Sobre a autora

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo”, na “Contigo!” e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso para atravessar a era digital com um pouco menos de drama. Sororidade e respeito ao próximo caem bem pra todo mundo.

Luciana Bugni