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Luciana Bugni

Luciana Bugni

O que o suicídio de Anthony Bourdain fala sobre nós?

Luciana Bugni

09/06/2018 04h00

Imagina um emprego que seja ficar viajando pelo mundo. Você seria pago para comer, beber, rir. Conversar com as pessoas. Tudo aquilo que você almeja nos 30 dias de férias, só que todos os dias do ano. Parece um sonho? A gente aprende a invejar quem leva uma vida assim. Primeiro, na TV, onde os apresentadores dos programas – bonitos, ricos, inteligentes – levam os dias de um jeito que gostaríamos de levar os nossos. E atualmente nas redes sociais: meus amigos e conhecidos estão lindos, maquiados por belos filtros, empunhando taças, dourando as pernas em piscinas azuis, conhecendo o mundo, comendo bem, se divertindo mais que eu. Será?

Nessa manhã de sexta, quando anunciaram a morte de Anthony Bourdain, o chef de cozinha, escritor e apresentador de TV americano. Todos lamentaram muito. Bourdain é uma daquelas unanimidades: público, famosos, amigos… todos o amam. Morrer aos 61 anos, uma tristeza. Mas a causa da morte, divulgada pela CNN, é um segundo susto. Esse homem que viajava o mundo, que frequentava grandes restaurantes, que contava excelentes histórias, que servia de inspiração para tanta gente e que, com a mesma desenvoltura sentava num restaurante simples para comer uma refeição de 6 dólares com Barack Obama no Vietnã… Esse homem se suicidou? Como pode?

"Mas ele parecia tão feliz com a namorada nova (a atriz italiana Asia Argento)", "Mas ele era animado, divertido, gostava de beber", "Ele estava no meio de um projeto profissional, devia estar envolvido nisso", foram algumas frases que ouvi essa manhã sobre o assunto.  Se a gente não consegue lidar, porque foge à nossa compreensão, podemos tirar lições disso. Aquela vida ideal que acompanhamos pelas redes sociais e até invejamos pode não ser tão boa assim. No fundo, a gente não sabe nem como as pessoas que estão ao nosso lado estão. E qual o nosso papel nisso? O dia todo correndo os dedos na timeline vendo as pessoas que expõe suas vidas perfeitas… está sobrando tempo para olhar para o lado e perguntar como elas estão? E mais: você está conseguindo dizer para alguém como se sente? E se a gente está nessa… imagina as crianças e adolescentes.

O provável suicídio do apresentador, na mesma semana da morte da designer Kate Spade (que se enforcou em seu apartamento, nos EUA), levanta um alerta no país, mas a preocupação deveria ser mundial. Quase 45 mil pessoas cometeram suicídio em 2016: e essa virou uma das três principais causas de morte nos EUA, com Alzheimer e overdoses de drogas. Sempre que se perde uma pessoa querida assim, a gente pensa que poderia ter evitado. Na verdade, talvez não pudéssemos. Mas será que conversar com o outro olhando nos olhos e perguntando verdadeiramente como as pessoas estão não nos tornaria menos solitários? Estamos todos conectados o tempo todo, mas somos apenas sozinhos que andam juntos.

O que será que a morte de Bourdain, o cara divertido e bonitão tem para nos mostrar? O que havia por trás do sarcasmo sedutor do cara que dizia não querer ser amigo do elenco de Friends ("eles tomam café demais, ninguém trabalha?"). Aquele que não tinha medo de mostrar o que há por trás da pseudo-glamurosa vida os restaurantes de luxo?

Acho que nunca saberemos. Mas podemos conhecer melhor aqueles que estão ao nosso lado. E nos abrir mais também. Levantar a cabeça do celular pode salvar vidas. Até a sua própria.

Aliás, esse belo texto do Marcelo Zorzanelli aqui fala muito bem disso. Procurar ajuda é um passo corajoso e importante.

Vai em paz, chef (Foto: Divulgação)

PS: Entrevistei Bourdain por telefone, há quase 15 anos, no começo da minha carreira. Era sobre um livro que ele estava lançando. Lembro de estar nervosa por fazer uma entrevista em inglês com alguém famoso e lembro da sensação de alívio quando desliguei o telefone. Ele, gentil, fez a conversa fluir adequadamente e não foi arrogante comigo e minha inexperiência em nenhum momento. Um cara legal, mesmo.

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).