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Luciana Bugni

Luciana Bugni

A enxaqueca de Maísa na internet: a criançada não está postando demais?

Luciana Bugni

06/04/2018 05h00

Eu tenho vontade de abraçar essa menina, apagar a luz do quarto e colocar um compressa gelada na testa – mas sem celular! (Foto: Reprodução Twitter)

Quando eu vi a foto de Maísa Silva chorando, de relance, no computador de uma colega aqui do trabalho, pensei várias coisas. Paparazzi? Ex-namorado deu print na tela no FaceTime? Por que estão expondo essa menina desse jeito? Ela é menor de idade! Mas não tinha sequer cogitado que a garota tivesse tirado uma selfie e postado suas próprias lágrimas de livre e espontânea vontade. Depois li a respeito: no auge de uma crise de enxaqueca, a garota postou seu desespero online em busca de conforto. Deu certo. Até o momento em que escrevo esse texto, a foto tinha sido retuitada por 1,5 mil pessoas e 25 mil pessoas tinham curtido a imagem da garota, bonita, com duas lágrimas rolando pela face.

Se selfie cura enxaqueca? Aparentemente sim, porque nos tuítes seguintes Maísa já estava dizendo se sentir melhor. Não posso dizer com conhecimento de causa, já que minhas frequentes enxaquecas nunca tiveram um alcance tão grande – no máximo o pessoal do trabalho e algum familiar. Em casos mais agudos, já dividi com desconhecidos, vá lá… mas fiquei restrita ao médico do pronto-socorro.

Eu devo estar ficando velha. Na verdade, eu estou ficando velha. Mas será que a gente não está deixando essa moçada muito sozinha, não? Não tenho nada contra chorar em público. Inclusive sou adepta da prática e nem vergonha tenho disso. Doeu? Eu choro. Emocionou? Eu choro. Onde eu estiver.  Aliás, quando tenho enxaqueca então… eu até evito chorar, porque a cabeça dói mais ainda, mas tem hora que não aguento e lá estou eu chorando.

A questão não é bem chorar ou não, mas sim postar ou não. O dia inteiro estamos postando coisas de nossa rotina loucamente. São pensamentos aleatórios, fotos que achamos bonitas, links que achamos interessantes… até coisas mais pessoais como a pia cheia de louça, o cabelo com papel alumínio e descolorante no salão,  cachorros, gatos, amigos bêbados, pedaços de nossas casas, o que estamos vendo na TV… por que será que a gente faz isso? Ou: por que a gente faz isso hoje se, há 15 anos, nem cogitava em postar detalhes da nossa vida para uma multidão desconhecida e vivia muito bem, obrigada?

Oras, a gente faz isso porque é adulto e sabe exatamente o que quer fazer. Mas a geração de Maísa, que tem 15 anos, nem sabe como era não postar cada passo que dá. Eles nasceram com esse costume se formando, eles cresceram conosco entusiasmados, postando cada passo que eles davam enquanto cresciam.

No caso de Maísa, famosa, cada tuíte ou foto postada implica em milhares de curtidas instantâneas. Mas e as nossas crianças que, em crises de ansiedade silenciosas esperam avidamente uma curtida? A gente está olhando para eles? Será que eles estão se sentindo sozinhos também a ponto de, no auge da dor de uma enxaqueca, procurar o melhor ângulo para suas lágrimas e checarem ansiosos a repercussão na internet?  E na condição de enxaquecada constante, eu garanto: checar o celular piora a dor.

Sou eu que estou velha ou tem algo muito errado acontecendo aí bem embaixo do nosso nariz?

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).