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Luciana Bugni

Luciana Bugni

Em defesa de Preta Gil, Gaby muda de opinião sobre Silvio Santos. Mas pode?

Luciana Bugni

06/06/2018 16h28

Gaby comprou uma briga difícil para mostrar que o Silvio Santos faz não é certo (Foto: Divulgação)

Antes de começar esse texto e falar mal do Silvio Santos, eu tentei amarrar minhas mãos. Se eu ainda fumasse, pelo menos manteria os dedos ocupados e não correria o risco de dizer o que penso do patrão do SBT. A gente sabe que condenar o maior comunicador deste país, que tem mais de 50 anos de história na televisão, não é tarefa fácil. Poxa, o cara é brilhante! Tudo em que ele toca vira ouro! Ele é carismático, inovador e… datado. Ih, pronto: falei mal do Silvio Santos.

Mas o fato é que nos últimos cinco, seis anos, as coisas mudaram. Eu mesma, há algum tempo, estava falando mal de mulheres, as chamando pelos velhos estereótipos (chatas, falsas, traíras) e dizendo que meus amigos de verdade eram homens. Já fiz besteira, já disse que mulher devia evitar certas roupas para não correr risco de estupro (ai, que absurdo…). Hoje, olho para trás e vejo que a maioria dos meus amigos homens é realmente incrível, mas até eu já fui vítima do machismo deles (e do meu próprio, que me foi ensinado por anos). E aprendi isso com outras mulheres. Os meninos estão aprendendo também e aprender é difícil para todo mundo. Como vamos entender que atitudes que tivemos a vida inteira não estão tão certas assim? Como é que a gente vai entender que alguém brilhante como Silvio Santos se comporta de uma maneira errada, se ele é um chefe adorado pelos empregados e um apresentador idolatrado pelo seu público? Quem tem coragem de dizer que ele não tem razão? Gaby Amarantos teve.

Primeiro, Sílvio foi indelicado com a cantora Preta Gil na gravação de um programa: ele disse que Preta estava mais gorda do que na última vez em que se viram, mas continuava tendo um rosto bonito. Sabe aquele emoji de uma pessoa batendo a mão na testa? Não faz isso, Silvio! Lógico que ele não tinha intenção de magoar. Um senhor de 80 anos só disse isso querendo agradar. Para ele, que ficou datado, falar bem do rosto da mulher, dizendo que "apesar de gorda" ela é bonita, é um elogio. Pois não é. Preta se ofendeu. E se é difícil para a gente aceitar as mudanças do mundo e entender que não dá mais para fazer as brincadeiras do passado, imagina para um homem idoso, dono de um canal de TV…

Se Preta não disse nada, apenas fechou a cara, Gaby entrou em defesa da colega. "Sério que vocês acham Silvio Santos ídolo? O cara fez a gente crescer vendo-o ridicularizar negros, mulheres, gays, plus e ganhar mídia com isso. Vocês estão mal de ícone viu, não dá mais pra normalizar isso!", ela postou. E sofreu uma chuva de críticas. Até Danilo Gentili surgiu em defesa do chefe dizendo que ela estava querendo aparecer. Estou falando… é difícil acompanhar os novos tempos. Quem sempre achou normal fazer piada com negro, mulher, gay e gordos nem consegue entender que esse tipo de brincadeira ofende qualquer um que se encaixe nessas classes. E até quem não se encaixa, mas tem o mínimo de senso, fica constrangido. A gente só precisa parar um pouco e pensar: eu me sentiria bem se fosse Preta Gil ali?

Logo, a internet toda caiu na cabeça de Gaby. E trouxeram à tona tuítes antigos em que ela dizia, em 2011, que Silvio era seu ídolo e que ela ria muito com o programa dele. Como se o fato de um dia ter gostado muito de Silvio tornasse impossível criticá-lo agora. Vem cá… ninguém pode mudar de opinião, não? Há cinco anos eu estava dizendo que não tinha amiga mulher. Hoje posso dizer que elas são as minhas melhores amigas e nunca saíram do meu lado. A gente pensa um pouco e muda, ué. Isso que é maravilhoso de ser humano.

Gaby respondeu às críticas assim: "Sim, eu corria com um prato de macarrão pra assistir o Silvio Santos, e sempre vi transformistas e amava. Só que os tempos mudaram, nos anos 80 era 'normal' fazer essas piadas. Trapalhões também faziam, Casseta e Planeta e outros. Mas hoje em dia não dá pra achar legal, vamos evoluir! Sobre os tuítes antigos, a minha tendência como ser humano é evoluir, eu já deixei de gostar de vários falsos ídolos depois que descobri que eles eram machistas, assediadores, homofóbicos e coisas horríveis assim. Que caiam todos, em Hollywood, aqui, no mundo inteiro!", ela disse, corajosa.

"Ai, mas Silvio Santos tem 80 anos". Ele é uma das pessoas mais inteligentes desse país, faz até briga de funcionário virar audiência. Se quiser acompanhar a evolução, ele consegue e deve ser bem assessorado para isso. O problema é não querer. O problema é tratar mulher como um ser menor, como fez com Eliana, mesmo que seja só para fazer uma graça. Aí, nesse caso, é importante pontuar que está errado, para que seus milhares de fãs não sigam seu padrão de comportamento só por que o veneram. Gaby explica bem aqui: "Racismo não é opinião, gordofobia não é opinião, homofobia não é opinião, machismo não é opinião. Comunicadores, humoristas e todo e qualquer ser humano não podem usar desse artifício pra destilar preconceito! Aprendam", ela postou.

Sacou, Danilo?

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).