Luciana Bugni

Meghan pode ser feminista e princesinha ao mesmo tempo? Só se ela quiser

Luciana Bugni

21/05/2018 14h00

Só a presença da mãe de Meghan, Doria Ragland, já torna essa foto oficial revolucionária
(Divulgação/Palácio de Kensington)

A internet não pode ver qualquer coisa sem botar uma polêmica em cima. Se for uma história de final feliz, então… Agora, a sensação da vez é discutir se a duquesa Meghan Markle é ou não feminista: afinal, ela largou carreira, país de origem e esmaltes vermelhos para casar com um príncipe, para morar em um castelo, para ser da monarquia, para nunca mais ver um boleto na vida ou para qualquer outro nome que você queira dar para o que aconteceu sábado no Castelo de Windsor e fez o mundo inteiro parar para ver.

Quando eu li esse especial aqui, na véspera do casamento, logo pensei: “você tem que amar muito um homem para abrir mão de tudo e entrar para essa família chata”. Nelson Rodrigues, o pai do machismo intelectual brasileiro, disse que o dinheiro compra o amor verdadeiro. Duvido. Continuei encafifada. Por que uma mulher inteligente, talentosa, bonita, que tem grana, sucesso, fãs e uma causa (ou algumas, sendo que ela é feminista e de origem negra, por exemplo) vai se sujeitar a casar com um principezinho britânico?

A família é problemática desde sempre. A família é sangrenta há séculos (não estaríamos aqui falando deles hoje se eles não tivessem matado mais gente nas guerras e, assim, ganhado as batalhas). A família é careta (gente, não pode nem usar esmalte escuro!). Se era para viver em uma série, Meghan poderia ter continuado em “Suits, não precisaria ter se mudado para dentro da casa do elenco de “The Crown”. Afinal, por que essa mulher casou com esse cara? Ela não é feminista?

Todos esses questionamentos caíram na sala da minha casa junto com minhas lágrimas, quando Meghan entrou sem estar acompanhada por um homem na abadia. Quando o príncipe Harry olhou para ela daquele jeito (fofo!), quando a mãe dela, negra e sozinha na cerimônia, esfregou aqueles dreads na cara da realeza. Para mim ficou claro: pode uma feminista largar tudo para virar princesa? Pode. Mulher pode fazer tudo o que quiser: até virar princesinha.

A gente tem uma ideia que militante tem que passar a vida no megafone. Meghan pode militar usando um esmalte clarinho estipulado pela monarquia? Pode. A gente escolhe nossas tretas. Se ela, divorciada, mais velha que o príncipe, de família negra, se fez aceita na família mais tradicional do mundo, já está passando um recado. Quando meu primeiro casamento acabou, não fui convidada para ser madrinha do casamento de uma das minhas melhores amigas. Não fui sequer convidada para o casamento de um amigo (que era) muito querido. As mulheres separadas ainda não são bem-vindas em muitos lugares. Quando se coloca as palavras casamento e divorciada na mesma frase, parece que vem junto uma nuvem de mau agouro. Se você viu The Crown, sabe o tabu que é divórcio pra essa galera. Já teve rei que abriu mão do trono por amor a uma divorciada. Já teve princesa que abriu mão do amor por amar um divorciado (alô, Elizabeth, podia ter dado uma forcinha pra sua irmã, né?).Pois bem, a divorciada está lá no Castelo. Virou princesa. Isso não é um serviço feminista? Para mim, que não tenho intenção de ser princesa (eu gosto de usar batom vermelho e tomar umas cervejas na rua, sabe?), só sou divorciada, é.
Uma coisa é você largar o emprego para cuidar dos filhos porque o marido não divide as tarefas com você e não aceita que você trabalhe fora, conviva com pessoas, tenha sucesso ou, pesadelo maior, ganhe mais que ele. Outra coisa é você, bem-sucedida, rica, militante, largar a sua carreira porque se apaixonou por um homem que por acaso é da família Real mais famosa do mundo. E que, provavelmente, vai dividir os cuidados com os filhos com você, como vimos no exemplo do Príncipe William, que anda até dormindo em solenidade depois que nasceu o terceiro filho. Lavar louça ele não vai – e nem você.
Se isso a está incomodando, não saberemos nunca. Apesar de ter vontade, é provável que eu não me torne amiga da Meghan. Mas a militância dela pode adquirir outro formato. Todo dia que Kate Middletown repete uma roupa, ela escreve nas vitrines das lojas com spray: compre menos. E a gente, que cresceu achando que tem que usar roupa nova em todo evento, acredita. O que será que a atriz feminista negra que era divorciada e agora é casada com o princípe Harry vai escrever para o mundo?
Uma certeza eu tenho: se ela largou carreira e todo o pacote por amor, foi apenas porque ela quis. Para mim, isso já é um servição feminista. E ainda nos devolveu naquela manhã de sábado um pouquinho da fé no amor. Quando Harry disse: “Você está incrível. Eu sou um cara de sorte”, ele realmente sabia o que estava dizendo.

O que vai vir depois, não sabemos. Essa análise de Jonny Dymond, correspondente de família real, fala melhor que eu. Mas estamos na torcida.

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre dois adolescentes, um bebê e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita comerciais na TV, conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e a revista “AnaMaria”. Já trabalhou no “Diário do Grande ABC”, “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

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