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Criticar Sara Winter é falta de sororidade?

Luciana Bugni

19/08/2020 04h00

(Reprodução: Twitter)

Uma criança de 10 anos está grávida de cinco meses. O suspeito é seu tio. Ela provavelmente é vítima do crime desde os 6 anos de idade. Ela tem direito ao aborto por lei no Brasil, desde 1940. Nenhuma mulher cuja gestação é fruto de um crime precisa levá-la adiante. No caso de uma criança, parece desnecessário dizer que é ainda mais injusto que ela seja obrigada a ser mãe: o corpo pequeno não está preparado e ela corre risco de morte. Outro motivo para abortar com respaldo da lei.

Mas, estamos no Brasil em 2020. No meu país, até uma notícia aterrorizante como essa — uma criança grávida de um familiar — vira do avesso. A notícia não é o cerco ao pedófilo. Nem a necessária educação sexual que pode evitar esse tipo de atrocidade. Nem a maneira como os pais podem perceber possíveis indícios do crime nos filhos.

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A notícia no país do avesso é uma galera que vai pra porta do hospital tentar impedir a garota de fazer o aborto. Sim. Tem gente no meu país que divulga o nome da vítima na internet e pede que as pessoas rezem de joelhos para que a criança gere o feto. Foi o que fez Sara Giromini, conhecida como Sara Winter, em seu Twitter (o post ficou 24h no ar e escancarou a fragilidade das redes sociais). Outros grupos religiosos também o fizeram. No meu país, há pessoas que acham que defender a vida é acusar a vítima e colocá-la em risco de morte.

Ué, mas e a sororidade?

Não me agrada a figura de Sara Giromini. Escrevo esse texto olhando para a foto em que ela empunha dois revólveres ao mesmo tempo. Não gosto de armas e não gosto do que a imagem sugere. E abomino o que ela fez com a menininha. Com que intenção? Pra quê? Como pode alguém pensar em fazer algo tão baixo?

Ué, mas não devo ter sororidade? Eu posso falar mal de outra mulher sem que me tirem a carteirinha de feminista?

A resposta para a retórica pergunta acima é sim. Não está escrito em nenhuma cartilha do feminismo que eu deva apoiar criminosas, por exemplo. Sara comete um crime ao divulgar o nome de uma criança estuprada. Tem que pagar por isso. Sara se traveste de pró-vida, mas deixa claro que isso é o que menos importa. Seus dogmas parecem estar acima do bom senso. Se é que são esses os seus dogmas verdadeiros, já que ela vive mudando de ideia. Minha vontade é perguntar: Sara, você realmente acredita naquilo em que você diz que acredita? Não dá para saber.

Sara diz que defende a vida enquanto posa para a foto com duas armas de fogo na mão, numa contradição claríssima. Não é possível achar que isso está ok. Não é possível ter sororidade com mulheres que cometem crimes. Elas devem pagar por eles.

Mais do que isso: se é para escolher alguém com quem ter sororidade, seria a criança. Com sua mãe também — acusada por mulheres religiosas de ser culpada pelo que aconteceu com a filha.

No meu país, quatro meninas de até 13 anos são estupradas por hora. POR HORA. Várias delas engravidam. Todas deviam ter o direito e a oportunidade de um aborto seguro. A garota de 10 anos chegou ao hospital em um porta-malas de carro para que não fosse vista ou atacada pela horda de pessoas que dizia proteger esse feto.

A infância dessa garota, desgraçada pela presença de um pedófilo dentro de casa, terá ainda mais esse trauma: uma viagem até o hospital dentro de um porta-malas, grávida de cinco meses, para sofrer um aborto que já será traumatizante, mas muito menos do que uma gravidez que, se levada às últimas consequências, poderia ser letal. Eu escrevo isso sentindo o que é estar sacolejando no porta-malas escuro, com medo, com enjoo, grávida de cinco meses. Tudo porque um grupo de pessoas se importa mais com suas crenças do que com a vida.

Qualquer coisa que não seja defender o direito ao aborto dessa garota é mais crueldade. Infelizmente, meu país parece estar transbordando desse tipo de maldade desde que tudo virou do avesso.

Pessoas crueis como Sara Giromini, eu penso olhando para a foto em que ela me encara com dois revólveres, têm de pagar por suas atitudes.

E sigo defendendo as mulheres por aqui e no Instagram.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo”, na “Contigo!” e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso para atravessar a era digital com um pouco menos de drama. Sororidade e respeito ao próximo caem bem pra todo mundo.