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A "surra de bumbum" de Anitta é uma lição de amizade entre mulheres

Luciana Bugni

29/11/2019 18h59

(Divulgação)

O novo clipe de Anitta, "Combatchy", foi lançado há 10 dias e já tem 15 milhões de visualizações na hora em que escrevo esse texto. Agora que você está lendo, deve ter ainda mais. No vídeo, de pouco mais de três minutos, Anitta dá um tempo nos "featuring" internacionais e se une a outras três brasileiras: Lexa, Luisa Sonza e MC Rebecca.

Elas simulam uma richa no começo do clipe. Estão indo para uma festa em carros diferentes e não querem encontrar o que parecem ser as meninas de outras gangues. Quando chegam no estacionamento do lugar, declaram que vai ter "fight de bumbum". O tipo de duelo é muito parecido com aquele do clipe "No guidance", de Chris Brown com Drake, que também tinha carros e a estética da rua à noite.

Os dois dançam para ver quem ganha na performance. Brown, que é dançarino, humilha Drake e essa é a piada. Anitta, aliás, usa um penteado de tranças de lado que lembra o de Drake em alguma fase da carreira. Outra esperteza danada, já que rolou polêmica na passagem do cantor pelo Brasil, quando ambos começaram a se seguir nas redes.

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Na batalha das mulheres a história é diferente. Pois começa o "Combatchy", que dá nome à música. "Agora vai começar o combate/ Quica, quica, bate, bate/ Hoje vai rolar um fight de bumbum/ Aqui não vai ter empate/ O bagulho é de verdade".  Cada uma das cantoras avisa que "seu popô vai dar nocaute em qualquer um". E aí que está a fina ironia e, pasme, a lição de sororidade. Mulher na pista não compete com mulher. O que elas mais querem é que dê empate, sim. E todo mundo vá até o chão.

O clipe segue estruturando os rounds de uma luta que só existe no passado. Ali, rebolando, as meninas estão em uma grande festa em que torcem uma pela outra. As supostas gangues do começo a história viram um grupão de mulheres dançando e sorrindo.

É assim mesmo que funciona a dinâmica da pista de dança hoje. Lembrei de uma festa, no ano passado, em que a repórter Camila Brandalise tentava me ensinar a rebolar como ela. Caso eu aprendesse a executar os movimentos (não aconteceu do jeito que eu queria, infelizmente), ela vibraria por mim. "Não é competitivo, pelo contrário. Quando eu começo a rebolar, quanto mais mulher estiver na pista rebolando muito comigo, melhor", ela me disse. É verdade.

Diferentemente na maioria dos clipes de Anitta em que um homem legitima o impressionante rebolado da cantora, dessa vez o recorte é fiel à realidade. Na pista, a gente não se importa com os caras mesmo. Fica muito mais legal se estivermos botando pra tremer, descer, jogando e indo até o chão entre nós mesmas.

Anitta tem uma participação importante nisso. Ela legitimizou o "você pensaram que eu não ia rebolar minha bunda hoje?", seu bordão nos shows. A frase perdeu a vulgaridade de uns anos atrás. Ela até deixou a expressão "bunda" pra trás também e adotou o pueril "bumbum" ("cê tá louca tá mexendo com o bumbum", "vai tomar surra de bumbum"). Uma educação quase recatada, que deixaria minha mãe orgulhosa. Ok, exagerei.

Aprendi também recentemente com as repórteres de Universa que existe até a rabaterapia: uma aula que acontece no centro de São Paulo com o objetivo de fazer as mulheres tirarem amarras e traumas pelo simples fato de mexer a bunda. Digo, o bumbum (desculpe, mãe).  Nathália Geraldo e Ana Bardella, aqui da redação, testaram. Funciona mesmo, elas garantem.

Na semana em que soltamos essa matéria, conversamos com algumas universitárias de comunicação que moravam na comunidade de Paraisópolis. "Uma aula, pra mexer a raba?", elas estranharam. "É só ir no baile que a gente ensina, ué".

É isso, mexer a raba é sororidade. É de extremo interesse de qualquer mulher que outras também vão "até o chão" (até o chão).

Deve ser meio difícil para um homem entender isso. A gente compreende. Não dá para ter a dimensão do que nunca viveu. E pior: não estamos muito interessadas em dividir esses momentos com as amigas com caras que nos olhem com qualquer olhar que não seja o de partilha de um momento bom. Mexer a raba, rapaz do céu, é muito bom.

O clipe de Anitta é, sim, empoderador. A gente termina de ver fazendo "Turudum Turudum Turudum Turudum" na cadeira.

Na nossa pista, deu empate. E todo mundo saiu ganhando.

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

Luciana Bugni