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Débora Nascimento não amou filha logo no parto. Você se choca com isso?

Luciana Bugni

14/11/2019 04h00

Débora e Bella: é ok não estar plena o tempo todo, ok? (Reprodução/ Instagram)

"Você não nasce amando aquele pedacinho de carne. Não vou ser hipócrita e leviana de falar que assim que ela saiu de mim, eu já estava amando. Não é tão fácil assim. É um processo que todas passamos", disse Débora Nascimento, com um discernimento de fazer inveja, em entrevista à Revista Quem. 

Sabrina Sato também falou umas verdades sobre a gravidez ontem. Que romantizar o período a fez quebrar a cara: ela só chorava com Zoe na barriga. Eu só consigo pensar que é algo bom falarmos nisso abertamente.

As frases de Débora e Sabrina podem chocar muita gente que se vê capaz de amar o filho já na barriga. Mas abraça muitas outras mães que não se sentem totalmente ligadas ao filho assim que ele nasce. Eu me enquadro nesse segundo grupo. Lembro da sensação de, na maternidade, com filho dormindo em uma caminha transparente e eu eliminando coágulos gigantescos na hora do banho, pensar: o que foi que eu fui fazer? "Agora estou aqui com esse completo desconhecido, a quem estarei ligada pelo resto da vida, toda acabada", eu falava para mim mesma.

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Antes que você julgue o pensamento egoísta, veja a fala de Débora sobre o tema: "Aprendi algo essencial: nunca julgue uma mãe. Cada criança é uma criança, cada vivência daquela mulher é diferente e cada mãe é uma mãe".

É lógico que eu não odiava meu filho. Mas é pedir um pouco demais que eu amasse loucamente uma pessoa que não conhecia. Spoiler: hoje eu o amo mais que tudo. Convivemos intensamente por mais de dois anos, aprendemos coisas um do outro, dormimos pouco, comemos bem — tudo isso junto. Não trocaria nossa convivência pela minha liberdade nunca na vida.

Mas se aquela Luciana lá atrás viesse aqui e visse um dia da minha vida… talvez eu tivesse usado camisinha. A questão é que aquela Luciana não existe mais. E isso é maravilhoso.

Débora prossegue: "Ela faz parte da minha vida, mas não vivo em função apenas dela. Existe um período que a gente tem o boom de hormônios e que você e a neném são quase que uma pessoa só. Mas sempre tive consciência de que eu e ela somos pessoas distintas." Que alívio é que possamos ler algo assim. Umas décadas atrás, era um pecado uma mãe admitir que não vivia só para o filho. Pensando bem, algumas pessoas se chocam até hoje.  

Mas a gente segue buscando um jeito de sermos nós mesmas nos intervalos da maternidade. Mentira, maternidade não tem intervalo. A gente segue tentando.

Ontem eu estava doente.  Meu dia tinha começado às 6h da manhã num laborátorio de exames, seguiu por hospitais em busca de diagnóstico, continuou ao chegar tarde no trabalho e, por consequência, ficar até mais tarde para dar conta de tudo.

Às 21h, quando cheguei em casa, posso dizer que olhar aquela carinha que dizia "brinca comigo, mamãe?" foi o ponto alto do meu dia. Mas não era exatamente o que eu QUERIA fazer. Sentei no chão com ele, mas estava com dor. Estava cansada. Estava com fome. Eu queria brincar, mas não queria nem um pouco brincar. Parece loucura, mas tenho aprendido que ser mãe é exatamente isso. Uma contradição eterna que beira o insano.

Aquela coisinha fofinha querendo brincar de dinossauro, de casas de Lego, de quebra-cabeça, de pintura com tintas e tudo isso junto, às 21h, era o que eu menos queria enfrentar. Mas sinto total liberdade de dizer isso em voz alta. Entre minhas amigas, podemos reclamar das crianças com frequência. "Não aguento mais levar no penico", "Estou enlouquecendo com as birras" e, quase sempre que alguém o elogia: "Você quer levar para você?".

Nenhuma de nós chegou ao extremo de doar a criança (talvez porque ninguém tenha aceitado, também). A piada só existe porque o sentimento é o extremo oposto. Um amor extremo.

Mas talvez a liberdade de falar abertamente de quando eu não quero estar com aquele menino adorável seja justamente o que me dá forças para sentar no chão e brincar um pouquinho. E depois inventar uma leitura de livros, em que nenhum dos dois se mexa muito, e que logo evolui para o soninho. Logo, no caso do meu filho, é depois das 23h. Mas as vitórias podem tardar na maternidade. Aliás, o que é demorar duas horas para alguém que passou 15 horas em trabalho de parto e quatro horas só no expulsivo? Tá tudo beleza.

Que bom que as Déboras e Sabrinas estão por aí falando a verdade sobre o que a gente sente. E quem não sente, tudo bem, também. É na diferença que mora a maravilha de ser humano. Agora, olha só, vou na reunião de pais. E depois sentar no chão e brincar — a nova moda da minha casa é cantar parabéns para todos os filhotes da Patrulha Canina (brincadeira qe se estende por horas).

Sigamos. Sorrindo quase sempre, felizes da vida. Mas confessando que a gente não é de ferro quando o bicho pega para valer.

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

Luciana Bugni