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Ok, Camila Pitanga é bissexual, você não é. E o que temos a ver com isso?

Luciana Bugni

11/11/2019 16h38

Sim, ela é bonita. E pode ser o que quiser (Reprodução/ Instagram)

O rumor mexeu com a internet nessa manhã: Camila Pitanga está namorando uma mulher. Mais tarde, a assessoria da atriz confimou para Léo Dias a relação. Especula-se que Camila não se sentia à vontade para assumir o namoro, que já dura um ano, mas após a publicação da primeira matéria, num jornal carioca, achou melhor fazê-lo.

Deve ser muito chato se ver nessa situação. Todas as pessoas deviam poder escolher quando querem dizer as coisas para os outros. Isso inclui as  famosas. Eu detesto dar satisfações da minha vida para gente que vive cobrando, você também não deve gostar. Celebridades também deviam ter esse direito de falar de si só quando têm vontade.

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Bastou a primeira notícia da bissexualidade da atriz para o mundo começar com a velha ladainha nas redes sociais (que infelizmente são gratuitas, então todo mundo escreve o que dá na cabeça).

1. "Mas uma mulher tão bonita…" – Pois é, uma mulher bonita. Porque orientação sexual nada tem a ver com ser ou não bonita ou desejada. Proximo tópico.

2. "Tá faltando homem mesmo" – Na verdade, não está. A questão é muito mais simples que isso: ela se apaixonou por uma mulher. Tem nada a ver com homem existir ou não.

3. "Deus criou a…" – Eita, peraí: nós não temos certeza do que Deus criou ou não. Mas mesmo quando acreditamos que fomos criados por Deus, precisamos ter em mente que Ele não criou todo mundo igual. E essa diferença também é criação Dele. Já pensou nisso? Aí, o que vamos fazer com as nossas diferenças… isso já é problema nosso mesmo.

Teve mais chorumela e nem vale a pena descrevê-las aqui. O que nós temos a ver com quem uma mulher famosa (ou não famosa) beija (ou não beija)? Ou se apaixona? Ou namora? A resposta é óbvia: nada. Já é difícil demais cuidar de nossos próprios rolês. Eu admiro o tempo livre de quem se disponibiliza a fazer análise de relacionamento dos outros. Mas sugiro ainda empregar esse tempo livre em outras atividades mais proveitosas, tipo ler livros. Ou outra coisa que você achar mais legal — vale até, de repente, experimentar beijar alguém do mesmo sexo. Vai que, né.

Uma vez uma amiga minha, recém-separada, disse que estava apaixonada. Eu perguntei o nome dele, de onde ela tinha conhecido o cara. Ela disse meio sem-graça que era uma mulher. A minha primeira reação foi um susto. Ela sempre saiu com homens, foi casada com um inclusive, nunca disse nada a respeito, como assim, saindo com uma mulher. A segunda reação foi um pouco mais assertiva: ela pode fazer o que quiser e a mim cabe apenas escutar e vibrar por ela.

Foi o que eu fiz: a ouvi. Ela estava mais surpresa que eu por se apaixonar tão perdidamente por alguém do mesmo sexo. Ela não achava que era possível se descobrir bissexual tantos anos depois da adolescência. Ela, como todo pessoa extremamente apaixonada, dizia que a garota era perfeita, era doce, era meiga, era engraçada e que, juntas, elas tiveram o melhor sexo de suas vidas.

A relação delas durou alguns meses. Depois disso, ela namorou outros homens e mulheres. Mas ainda diz que aquela garota foi o melhor sexo de sua vida.

Você consegue ver algo errado nisso? Ou gostaria de alguém palpitando na sua escolha amorosa?

Vamos deixar Camila Pitanga em paz. Vamos deixar todo mundo em paz. Quem sabe assim a gente vive também um pouco mais em paz e não tem que encarar um mundo de tanto ódio.

Inclusive, se todo mundo estivesse apaixonado, não ia sobrar tanto tempo livre para cuidar da vida dos outros. E nem ia dar, imagina que delícia, para odiar ninguém.

https://youtu.be/jG7dqY8pf1U

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

Luciana Bugni