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Morte de Alinne Araújo: o hater odeia o "vilão" e acaba virando um deles

Universa

16/07/2019 16h52

Que tristeza a história da Alinne e de quem se achou no direito de julgá-la (Reprodução/ Instagram)

Se tem uma coisa que (quase) todo mundo quer ver no mundo, é justiça. É assim quando assistimos novela, é assim quando vemos filmes. Sentimos raiva dos vilões desde a infância, quando ouvimos as histórias de princesas escritas há muitos séculos, as bruxas estão erradas e é natural que paguem por isso caindo de penhascos, queimando no inferno etc.

Corta para 2019, era das redes sociais. Está ao alcance das mãos de qualquer cidadão (que se considere) de bem, fazer justiça com os próprios dedos que digitam rápido seja lá o que considerarem certo.

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Aconteceu de novo: a influenciadora Alinne Araújo ia se casar com Orlando Costa, com quem estava há dois anos. Na véspera, após desentendimentos quanto ao regime de bens, Orlando decidiu terminar com ela por Whatsapp.

Alinne, que já tinha histórico de depressão, fez um post dizendo que quando leu a mensagem estava dirigindo. Em crise, largou o carro e se atirou numa via expressa, mas sobreviveu. Decidiu, então, manter a festa. Ela se casou com ela mesma e postou o vídeo da cerimônia em sua página. Depois disso, uma avalanche de críticas. Os comentários diziam principalmente que ela era interesseira e que havia se casado consigo mesma apenas para fazer marketing.

Muita gente apontou muitos dedos para ela, na intenção de fazer justiça — afinal, é assim que se trata os vilões interesseiros. Quem não a conhece, quem nunca a viu, quem não tem ideia das coisas que ela passou… todos dedicam uns minutinhos para dizer umas "verdades", mesmo que verdade seja um conceito meio subjetivo quando a gente não tem ideia do que está rolando na cabeça de uma pessoa.

Um dia depois, ela caiu da janela do prédio onde morava. A polícia apura as causas da morte, mas tudo indica que ela se suicidou. O tribunal da internet, então envergonhado, apaga as mensagens que postou para ela — afinal, ela não era mais vilã, coitadinha. E se volta contra outro monstro (tem sempre que ter alguém mau ou bom, ou então não é um conto de fada, certo?). É o ex- noivo que passa a receber mensagens de todo tipo o acusando de assassino para baixo. Ele também diz que sua vida acabou antes de excluir sua conta nas redes.

Que história triste. Claro que um simples comentário de um desconhecido na rede social não é capaz de, sozinho, causar a morte de alguém. Mas quem resolve fazer justiça com os próprios dedinhos não tem ideia do que a pessoa que vai ler aquilo vai sentir. Agredir, só por agredir, porque é fácil, rápido e anônimo, tem consequências devastadoras. E não faz a pessoa que digitou aquilo se sentir bem, faz?

Não é o primeiro caso de suicídio após ataque hater. Ela, como disse sua amiga Odara Marina Damasio, ela já havia sido encontrada pela mãe com meio corpo para fora da janela há alguns meses. Mas será que ler muitas mensagens de ódio não pode empurrar o resto do corpo? Eu apostaria que sim.

Após a morte de Alinne, ela deixa de ser a vilã interesseira e passa a ser a vítima. O público então procura ávido por outro bandido: o homem que a largou no altar e a fez passar por isso. Quando perceberem que esse rapaz também é uma vítima, será que finalmente vão olhar para o próprio umbigo? E então finalmente perceber que, de tanto procurar o algoz das histórias que leem na internet, estão virando eles mesmos os vilões.

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

Luciana Bugni