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Luciana Bugni

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Como Titi Gagliasso, meu filho gosta de Branca de Neve: e agora?

Universa

20/06/2019 04h00

(Reprodução Disney)

A festa de aniversário de Titi Gagliasso, filha de Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank, tinha um tema bem comum: princesas da Disney. Podia ser tema de uma festa há 10, 20 ou 30 anos — talvez mais que isso. O que chamou atenção no convite foi a informação de que meninos poderiam estar fantasiados de princesas, e meninas, de príncipe. Não, não era uma recomendação subversiva de ódio aos bons costumes e inversão de valores de gênero, como pode alguém que veio de 1950 pode acusar. Era só liberdade mesmo da criança se vestir como quisesse.

A discussão sobre o que (não) é brinquedo de menino ou de menina tem acontecido há algum tempo. Incomoda muito uns pais, que acham errado tirar o esterótipo das brincadeiras, incomoda mais ainda outros, que se sentem obrigados a forçar o filho a se vestir de princesa só pra mostrar que isso não mata ninguém. Não mata mesmo.

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Eu nunca tive a fase de princesa. Deve ter sido coisa da minha mãe, mas não tenho essa memória afetiva com as princesas que a maioria das garotas dos anos 80 tem. Mas veja só o que foi acontecer: meu filho ama o desenho da Branca de Neve.

No começo dessa febre, ele mal falava, mas já imitava os anões na mina "cavando noite e dia sem parar", porque tinha gostado muito da música que o pai havia mostrado para ele. Logo depois, se interessou pela história toda e pedia que eu lesse num livrinho de contos do tipo que temos em casa.

Devo ter lido então pela primeira vez o drama em que uma madrasta muito má resolve matar a enteada porque ela é bonita (!). Ela se infiltra na casa de uns anões e, como moeda de troca para ficar lá, se propõe a lavar e passar e cozinhar… fazer tudo que eles, por serem homens(!), não fazem. História vai, história vem, a madrasta vira uma bruxa horrorosa que a faz ficar desacordada com uma fruta muito bonita. A madrasta morre numa perseguição terrível. Aí vem um príncipe que ela viu só uma vez, a beija desmaiada mesmo (!) e eles são felizes para sempre. Abandonando antes os anões que a acolheram (!).

Eu não consigo me conformar com essa história de terror. Meu filho, no entanto, ama. Ele diz que os brinquedos são os 7 anões. Ele fica muito feliz quando eu digo que sou a madrasta dos irmãos dele. "Igual a bruxa?", ele pergunta. E fica orgulhoso. Quando estamos, na leitura, na parte de perguntar para o espelho quem é a mais bonita, ele se apressa a dizer: "mamãe!", "papai!", "a Mia". Todo mundo lá em casa é bonita, até a gata.

Ele acha demais a parte que a madrasta vira bruxa. Toda vez que ele vê a Branca de Neve cair morta porque mordeu a maçã envenenada ele pede para comer maçã. Deve dar vontade, sei lá. Quando eu estou dormindo e ele acorda antes de mim, vem me beijar delicadamente: "acorda, mamãe!". Faz isso com o pai também, avós, primos… dormiu, é a Branca de Neve.

Quando vamos levar o lixo na lixeira do prédio, estamos na mina. E precisamos descer a escada cantando "eu vou, eu vou". O mesmo acontece na ida para a escola. "Eu vou" é um hino da locomoção.

Eu detesto a Branca de Neve, não por ser uma personagem de meninas ou de meninos, mas por reforçar alguns estereótipos contra os quais eu luto na educação. Mas meu filho acha muito legal. Não só a princesa, como os anões, o príncipe, o caçador, os bichinhos e bruxa. Ele não faz nem a distinção de quem é má ou boa — tem gente que realmente quer que ele faça a distinção do que é masculino ou feminino?

Na festa da Titi e em qualquer festa infantil, "princesos" e "príncipas" trocam de lugar toda hora. Eles não estão preocupados ainda com os papeis masculino e feminino que tentamos tanto enfiar na cabeça deles (até sem perceber). E seguem felizes, sem qualquer dor de cabeça com o assunto, até que nós, adultos, consigamos estragá-los de vez.

 

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

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