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Luciana Bugni

Luciana Bugni

PC Siqueira x Bolsonaros: por que homens se chamam de "corno" para ofender?

Universa

08/01/2019 18h14

Valter Campanato/Agência Brasil

Eu sinto dizer para você, que duvida: todo mundo já foi traído, está sendo ou será. Tá, eu dei uma exagerada. Talvez a gente encontre uma ou duas pessoas na vida que tenham sempre tido parceiros absolutamente fieis. Mas a traição existe desde que existe o conceito de fidelidade — e isso tem um bom tempo.

A diferença é que eu confessar aqui que já fui traída (e fui, mesmo) é um pouco menos dolorido do que seria para um homem dizer para todo mundo tal infortúnio. Que tragédia é para um homem não conseguir segurar uma mulher e perdê-la para outro homem.

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Nessa semana, em meio às polêmicas declarações de Patrícia Lelis — que andou sugerindo que o ex, Eduardo Bolsonaro, não gosta de fazer sexo oral — voltaram à baila os xingamentos de "corno". O youtuber PC Siqueira que resgatou um tweet em que ele reclamava dos modos da ex numa balada e riu do deputado o chamando de "Eduardo Bolsocorno". Piada tipicamente masculina, mas que não tem nada de muito engraçado porque visa atingir o cara ofendendo, de quebra, uma mulher. Que, aliás, se é ex dele, pode dançar até onde for com quem bem entender.

Pois bem, mexeram com adjetivo que magoa o homem. Até o irmão de Eduardo, Carlos, comprou a treta:

Eita, que balaio.

PC Siqueira tentou amenizar a situação (ou colocar lenha na fogueira, não sei bem): "Não fica bravo, cara, dessa dor a gente entende, bora tomar uma breja". E completa: "Bora mostrar que não precisa ter vergonha. Eu fui o meme de corno de 2018. Agora é NOVA ERA. Vamo todo mundo lembrar ele SEMPRE pra acabar com esse mimimi! ", provocou.

O rapaz tem um ponto: pessoas que exercem cargos públicos não deveriam se expor ou perder tempo com briguinhas na internet. Mas a questão para mim é outra: por que será que mulher traída é socialmente aceita e homem traído é um corno para o resto da vida?

Oras, se o cara é corno, a mulher é vagabunda — aquela que dança até o chão sei lá com quem. Mas, no caso da mulher traída, o homem é apenas um… homem, né? "Coisa de homem, essas coisas acontecem, homem não se segura…" já ouviu qualquer consolo desse? E, digo mais: a culpa geralmente recai sobre a amante, como se o homem fosse um pobre inocente que não sabia onde estava enfiando as mãos — ou outros órgãos.

Traição dói para todo mundo. E a culpa de uma situação como essa pode ser de qualquer um, menos do cara traído. A culpa não é da vítima, lembra? Então, em pleno 2019, a gente podia abandonar esse termo pejorativo de vez. Nada de ofender os Bolsonaros, nada de ofender PC Siqueira. Libertem os traídos, se for esse o caso mesmo, dessa mágoa antiga e deixem que eles sejam felizes em paz outra vez.

* com Natália Eiras

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).