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Luciana Bugni

Luciana Bugni

Se Cardi B fosse homem, a atitude romântica do ex seria "coisa de louca"

Universa

20/12/2018 04h00

Parece que ela achou romântico? (Foto: Getty)

Imagine que uma mulher está em seu trabalho, chateada porque se separou recentemente, mas tentando se recuperar — como acontece com todo mundo depois de uma traição seguida de divórcio. É então que entra o ex, com um buquê enorme de flores e uma faixa pedindo perdão. Ele pede que esse mulher volte para ele. Achou romântico?

Imagine então que um homem acabou de se divorciar. Ele está no trabalho, focado em outras coisas. Quando entra a ex-mulher com uma faixa, flores e o que mais lhe for de direito, e interrompe o que ele está fazendo para pedir que ele a aceite de volta. Todo mundo no trabalho para para ver a cena. Achou que ela é louca?

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Pois é. A cena aconteceu com a rapper Cardi B no Rolling Loud, um festival que começou em 2014 na California e está crescendo. Mas o show não será lembrado pelo que ela construiu em sua carreira e, sim, pela entrada do ex, o também rapper Offset, no palco, pedindo que ela voltasse com ele. Os bailarinos da equipe da cantora participaram da "ação", segurando letras que formavam a frase "me aceite de volta". E ela, constrangida, teve que participar da cena com o homem que a traiu. Gente do céu… quem pode achar que isso é uma boa ideia?

Cardi não achou. Falou, longe dos microfones, com o pai de sua filha de 6 meses, que saiu de fininho. Mais tarde, os fãs fizeram comentários detonando Offset pela atitude. Cardi foi fina mais uma vez e disse que atacar o rapper não a ajudaria. Ao que parece, o que estava realmente atrapalhando era a exposição — que a atitude de Offset e os comentários dos fãs só fizeram aumentar. Outros rappers famosos engrossam o coro que pede que Cardi volte com ele e o perdoe pela traição documentada em fotos. E, me diz: o que eles têm a ver com isso?

Sempre tive um pé atrás com essas demonstrações de afeto em ambiente de trabalho. Eu gosto muito de receber flores, por exemplo, mas não vejo muito sentido em recebê-las no trabalho. A logística de ficar o dia todo com um buquê num lugar onde não há vasos e transportá-lo até em casa já me incomoda o suficiente. Imagine ter que ouvir gracejos dos colegas pelo presente de alguém que me traiu, como foi o caso de Cardi? Mas tem mais: mesmo que o cara não tenha dado mancada, por que as pessoas que trabalham comigo precisam ver que estou recebendo uma declaração de amor? Isso interessa a quem, que não a mim e ao autor do romantismo? Por que não, então, enviá-las em casa? Ou chegar em casa com o buquê? Pode trazer vinho também, eu juro que não vou reclamar.

Só consigo ver duas explicações. A primeira é a necessidade do homem de mostrar que é um romântico. Que merece crédito por suas atitudes. Que, pior, ao expor publicamente o presente que comprou para a amada, deve ser perdoado pelo erro que cometeu ou cometerá. Afinal, defenderá uma amiga mais tarde, "ele é do tipo que manda flores". A segunda é ainda pior, na minha opinião: demarcar território. Dizer "aqui ninguém mexe, essa mulher é minha (e eu sou um cara incrível, do tipo que manda flores)". E devem existir, claro, os casais que gostam de expor seu amor. Se todo mundo está feliz com isso, maravilha.

Mas Cardi não parecia muito feliz depois da declaração do ex. Eu também não ficaria. E você, homem, quando recebe uma prova de amor em público desse jeito, se sente mais amado ou mais constrangido? Qual o tamanho do egocentrismo de alguém que pede perdão em público desse jeito, dando mais importância ao próprio erro do que para a carreira da pessoa a quem magoou? E quando nós, mulheres, seremos respeitadas após decidirmos dar um fim à relação?

 

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).