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Luciana Bugni

Luciana Bugni

Seios de Isis Valverde de maiô são licença para desrespeitar a mulher?

Universa

06/12/2018 04h56

Acredita que a mãe recém-parida é também uma mulher com vida própria?

Isis Valverde postou fotos de maiô logo após parir. Mas nem foi isso que causou indignação na internet. Foi o fato dela estar sem o filho nas fotos. Como se não bastassem os nove meses em que a grávida anda com o filho pendurado, ela não tem sequer licença para entrar na água sem a criança. Sendo que ela vive da própria imagem e não pode se dar ao luxo de sumir nas redes sociais. Pois é, o que parece descanso ou, aos olhos de tantos, descaso, é na verdade trabalho.

Li o texto do colega Chico Barney curiosa. Como pode a internet achar que tem o direito de dar palpite nas fotos que uma mulher que acabou de parir posta? E quem vive da própria imagem não pode abandonar as redes sociais, como eu fiz no puerpério. Mais: se ela tivesse postado uma foto com o bebê estariam acusando a moça de fazer publicidade usando um inocente etc. Acabei me perdendo desses pensamentos quando, ao fim da análise, esbarrei no seguinte comentário:

"Quem quer ver bebê quando podemos ver este belo exemplo de como o leite materno deixa a mulher bela"

Não é o único. Tem gente que pergunta se ela colocou silicone. Rapaz, taí uma coisa que me deixa pistola: sexualizar o corpo da mulher amamentando. Amamentei meu filho em livre demanda nos lugares onde bem entendi por um ano. E hoje, ainda amamento. Mas como é só na hora em que ele vai dormir e acorda, normalmente estou em casa — o que me poupa de uma comissão julgadora composta por desconhecidos.

Não raro, senti olhares reprovadores, geralmente vindos de homens em idade sexual ativa. Algo que soava como: "por que essa mulher acha que tem o direito de sacar esses peitos para fora e fazer essa sacanagem aqui na minha frente?" Nesse período todo, nunca me deixei intimidar ou cobri o peito – o que irritava meu filho e atrapalhava bastante a refeição dele. Porque amamentar é isso, alimentar uma criança.

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Você ficaria ofendido se eu sacasse um Tupperware de papinha e socasse o conteúdo na boca dele às colheradas? Pediria para fazer isso num quartinho fechado? Olharia torto de canto de olho por eu estar alimentando uma criança que tem fome? Pois bem: É EXATAMENTE ISSO QUE ESTOU FAZENDO.
Mostrar os seios para alguém de maneira intencional é bem diferente de sacar com sacrifício o mamilo de dentro de um sutiã de amamentação (geralmente bege e molhado de leite) e enfiar na boca de uma criança que chora. Às vezes o bico está rachado. Sangrando. Vazando leite nas suas roupas. Putz, com pesar informo: o peito da lactante nao é sexy. E mais lamentalvelmente ainda para o leitor que cobiça os seios de Isis, eles não serão usados para fins sexuais por muitos meses.

E agora, caro leitor, prepare-se. Venho com a pior notícia: os peitos da lactante caem após o fim da amamentação. A criança circula forte e feliz, mas os seios da mãe não apresentam mais o vigor da juventude. Então, além de grosseiro, o comentário sequer tem fundamento. Amamentar não faz bem para os seios no sentido em que ele sugere, embora o leite deixe, sim, os peitos cheios e fartos nos primeiros meses do bebê. E tudo bem também, porque mulher nenhuma tem obrigação de ter peito empinado para deixar homem feliz.
Mas, se nada do que disse surtir efeito, pense que é com você. Seu filho chora desesperado no restaurante, no ônibus, na igreja, onde for. Sua mulher afasta o decote para amamentar e você capta o olhar de cobiça de algum outro homem que insiste em achar que a cena é sensual. Ou ouve o  comentário despretensioso de alguém: "Peitão, hein? O leite materno te fez bem".Você iria achar que é um elogio? Então pronto. Essa comparação não devia nem precisar existir. Homem tem que respeitar mulher mesmo sem ter mulher.

É só colocar na cabeça que tem que respeitar. A mãe, a que não é mãe, a que dá mamadeira, a que lambuza de papinha, a que trabalha no puerpério, como Isis e tantas outras, e a lactante. A gente já tem problema demais para resolver e não precisamos lidar com essa falta de educação travestida de elogio.

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).