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Luciana Bugni

Luciana Bugni

"É homem ou mulher?" Como a brincadeira de Felipe Neto pode matar pessoas

Universa

14/09/2018 04h00

Nem só de má intenção é feito o preconceito (Foto: Reprodução Instagram)

Meu amigo Matheus Pichonelli descreveu seu drama: seu filho de cinco anos, influenciado por amiguinhos, caiu de amores por Luccas Neto, irmão do youtuber ídolo da garotada, o Felipe Neto. A gente não sabe direito quem são eles, porque somos adultos e também porque nossos ouvidos trabalham em outra frequência auditiva, como bem definiu Matheus. Estamos mais para um jazz do que pra gritaria  – os brados mais altos que suportamos são dentro do estádio, jurando amor pelo nosso time do coração. Ainda assim, no máximo por 1h30.

Mas a criançada sabe quem é Felipe Neto. E mais: 25 milhões de pessoas seguem o rapaz. Essa moçada assiste repetidas vezes vídeos em que ele exibe seu cabelo colorido e conta histórias (algumas delas engraçadas) entre berros.

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Essa semana, Felipe inventou uma brincadeira que foi alvo de muitas críticas da comunidade trans e LGBT na internet: um jogo de adivinhação em que ele tinha que acertar se a pessoa da foto era homem ou mulher. Nas imagens, personalidades e anônimos de aparência andrógina confundiam o apresentador. A graça, aliás, era essa: ridicularizar a aparência dos outros.

Quando a internet caiu em cima, Felipe se defendeu: "Trata-se de um jogo baseado em questionar se alguém é de fato uma mulher ou homem, ou se é alguém que parece uma mulher ou homem, seja com maquiagem, produção ou por mera semelhança de traços, e não por serem transexuais. Dos 18 casos apresentados, apenas duas pessoas são transexuais", ele diz, antes de pedir desculpas. "Quanto às pessoas ofendidas, peço desculpas e informo que não tive, em momento algum, qualquer intenção de ofender, até por isso a equipe foi orientada a não colocar pessoas transexuais no vídeo".

Talvez não seja de propósito mesmo. Felipe trabalha bastante e coloca no mundo pelo menos dois videos por dia. Na correria, a gente derrapa. Mas existe uma linha muito tênue entre a ofensa e a brincadeira e é muito importante estar atento à isso, especialmente quando alcançamos 25 milhões de seres humanos. Se ofendeu alguém que é diferente dele (ou de mim), está errado. Não podemos julgar, nem dizer que é mimimi. Eu sei que a internet adora dizer que é mimimi, mas pensa comigo: quando Felipe passa 15 minutos na internet olhando fotos de pessoas e julgando se elas são homens ou mulheres, ele está perpetuando o estereótipo que tanto agride pessoas trans.

É aquela velha história de "se você é homem, mas parece uma mulher, eu vou rir de você". Ou, em casos mais extremos e violentos, agredir fisicamente. Imagine que a expectativa de vida de uma pessoa trans é de 35 anos — muitos deles são assassinados por intolerância. Imagine o que é viver com medo de ser morto porque você é diferente do outro?

O segredo para mudar a realidade dessas pessoas é não disseminar o preconceito – coisa que Felipe, mesmo que com boa intenção, fez. Não dá para a gente rir de um homem que parece mulher, de uma mulher que parece homem. Ali existem pessoas que podem estar sofrendo com isso.

A maioria das fotos analisadas pelo youtuber é de atores ou atriz vestido de outro gênero para filmes e séries, ok. Mas entre as 18 imagens, havia pelo menos duas trans. "Em nenhum momento o vídeo aborda pessoas transexuais ou homossexuais", ele diz no texto de apresentação. Aborda, sim. E mesmo que não houvesse nenhum, a brincadeira toda reforça que é engraçado (ou ridículo) ser diferente do padrão homem/mulher.

Minha geração cresceu rindo das trapalhadas de vovó Mafalda no programa do Bozo. Eu me lembro, ainda na infância, de algum vizinho mais velho me contando um segredo: "a vovó Mafalda é um homem". Ele riu muito. Eu achei curioso, mas para mim não fazia muita diferença. A vovó Mafalda era engraçada por ser a vovó Mafalda.

Dizer para criançada que isso é engraçado, Felipe, é preconceito, sim. Foi algo que colocaram na nossa cabeça e a gente não precisa colocar também na cabeça das próximas gerações. Por mais que sua intenção não tenha sido essa, são bem esses valores que a gente está tentando combater. Para que nossas crianças não cresçam com os mesmos preconceitos que nós. E, assim, menos gente sofra (ou seja assassinada) no futuro.
😉

 

 

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).