Luciana Bugni

É muita choradeira! Fique longe dos cancerianos

Luciana Bugni

02/07/2018 04h00

Wagner Moura é boy canceriano: isso deve ser um perigo, gente! (Arte: Marília Filgueiras)

A gente sabe que tudo o que a gente sempre procurou é um homem sensível. Se ele for afetuoso então, é o remédio para qualquer carência. Se, no pacote, vier um pouco de charme, bem temperado de muita melancolia, meu deus. Um canceriano reúne todas as características que você sempre esperou de um homem e melhor: está louco por você.
Ele vai te acompanhar em todos os lugares, vai ler a poesia que você escreve, vai te mandar no seu Whatsapp o link de uma obra de arte que ele encontrou no site do Guggenheim de Veneza e achou que “tinha tudo a ver com você”. Nessa situação, eu alerto: é bom aproveitar como se fosse a última grande chance de ser feliz. Porque provavelmente é.

É claro que vai ter a noite perfeita de sexo regada a lágrimas de emoção tamanha a “energia do encaixe”. Claro que vai ter filme embaixo do edredom regado a lágr00imas graças à atuação “extasiante da Julianne Moore”. Claro que vai ter bebedeira memorável cheia de papo cabeça regada a lágrimas graças à memória de uma constelação familiar recente. Tudo com o canceriano tem um molho salgado – vai ter choro, sim.  E você, apaixonada que está, chama de sensibilidade. E gosta disso.
Aos poucos, percebe: o cara já esteve em todo o tipo de relacionamento. Leva família tão à sério que transforma tudo o que o cerca em laços. Instantaneamente. Muito antes do que você espera, estará ali sentada do sofá da casa dele, tomando uma coca-cola bem gelada. Nada para um canceriano pode ser menos. Tudo é muito – muito sono, muita insônia, muita bebida, muita loucura, muita raiva, muito amor. Pronto. Você já é parte da moldura que ele enquadrou como vida dele. E você gosta disso.
Ele vai dividir o time de futebol com você.  Vai dividir a coleção de discos de rock progressivo dos anos 70 com você. Vai dizer que você precisa ouvir aquelas músicas, que elas vão mudar a sua vida. E lá está você ouvindo uma guitarra há 12 minutos e procurando a mudança. Mais ainda: ele vai fazer, muito naturalmente, que você divida com ele tudo o que pensa. Ele vai valorizar cada história pequena, daquilo que seu pai disse no caminho para o jardim da infância depois de embrulhar seu lanche num papel filme. E, desse modo, você vai se jogar, com a alma nua. E digo mais. Você vai gostar disso.
Aí, nesse paraíso desenhado por Monet – que parece poder se desfazer a qualquer momento – entra a razão para ficar longe deles, se é mesmo que a nuvem de lágrimas não bastou. Tudo que é seu vai ser dele. Não falo só de carro, de CDs, de livros. Falo dos sábados de manhã, em uma viagem a trabalho, a mais de mil quilômetros da capital. Falo de cada momento tranquilo em que seu espírito conseguir se deitar sobre um travesseiro e pensar nas coisas boas que tem. Falo sobre a sua opinião sobre a maioridade penal.. Desse modo, ele vai desfazer um por um todos os seus valores. Suas crenças, seu modo de encarar a vida, que você passou mais de 20 anos formatando? Não valem mais nada. É então que você vai perceber que por mais que tudo esteja certo, está tudo errado.

E, veja bem: o tratamento para se livrar daqueles representados por um caranguejinho (animal que, por sinal, se alimenta lentamente da presa) é  sério, é dolorido e se pauta na abstinência. Então é melhor começar já, ou você vai incorporar o drama, o sofrimento e as lágrimas aos seus dias, como se fossem seus. E, logo aviso: não vai gostar disso.

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre dois adolescentes, um bebê e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita comerciais na TV, conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e a revista “AnaMaria”. Já trabalhou no “Diário do Grande ABC”, “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

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