menu
Topo
Luciana Bugni

Luciana Bugni

Você vive para você ou para postar no Instagram?

Luciana Bugni

30/06/2018 04h00

Um clássico Instagramável: as pernas na piscina. Nesse caso, da Letícia Birkheuer (Reprodução: Instagram)

Foi numa conversa sobre o… Neymar (eu sei que você não aguenta mais falar disso, sempre ele). Um amigo virtual do Twitter disse, após ler esse texto aqui: "Estamos mal de ídolos. O mais triste é que não se vê alegria no futebol dele. Ele não se diverte. Quando joga bem é sempre por vingança ou pra calar a boca de alguém." Isso me deu um estalo. Ele joga para postar no Insta, eu pensei. E esse é o pior jeito de levar a vida que eu conheço. Isso foi antes da partida contra a Sérvia em que, depois de cair e dar aquelas roladas cinematográficas só duas vezes em campo, fez o que se esperava dele: jogou bola. Enfim, já fiz as pazes com Neymar, o que eu mais quero é que ele me deixe amá-lo muito, porque tenho uma leve tendência a ser devota do Neymarzismo. Mas a história do Insta ficou na minha cabeça.

Desde que as redes sociais surgiram, a gente começou a mudar um pouco nossos padrões de diversão. Outro dia, postei a foto de umas flores que estavam na frente de um restaurante e uma amiga perguntou onde era o lugar. Mesmo sem saber se era bom, ou o que serviam lá, ela sentiu vontade de ir porque era bonito ou, como a gente diz num tom meio pejorativo, instagramável. A timeline é cheia de pessoas lindas e sorridentes, sorrindo com suas taças de vinho rosé. As meninas estão bem vestidas. Os caras tem seus coques cuidadosamente desarrumados. E será que todo mundo realmente está vivendo aqueles momentos de deleite?

Não estou aqui para criticar quem usa Instagram não, nem poderia: sou usuária compulsiva do Stories. E já tive minhas questões para deletar o app do Facebook. Mas será que o uso exagerado da rede social não faz com que a gente construa uma realidade instagramável? Outro dia perguntei para um amigo como estava o namoro e ele, um pouco bêbado, disse: "horrível". E já se explicou: "Eu sei que tem um monte de foto no Insta da gente dizendo que se ama, mas nada daquilo é verdade". Eita.  Uma outra amiga contou sobre uma crise no relacionamento de uma conhecida. "Mas gente, eles vivem saindo juntos e se amando loucamente", eu disse. "Só na internet", ela esclareceu. Será que isso não está atrasando a vida da gente, não?

Voltando para o Neymar: dei uma leve stalkeada no moço e cheguei à conclusão que ele joga muito, sai bem nas fotos e é adorado pelos fãs e amigos. Uma cara legal, tem muito dinheiro, vive indo em festas, tem um filho lindo e fofo, um monte de tatuagem e uma namorada maravilhosa. Legal, tudo isso realmente é verdade. Mas será que é só isso? E, de tanto olhar para a parte boa da vida que ele mesmo posta, será que não acaba ficando difícil reconhecer e viver a parte que não é tão boa assim? Na verdade, eu nem estou falando sobre o Neymar. Estou falando sobre nós mesmos.

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).