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Luciana Bugni

Luciana Bugni

Você acha que o vídeo com a russa é só brincadeira? E se fosse sua mãe?

Luciana Bugni

21/06/2018 04h00

A charge certeira do cartunista Gilmar (@cartunista_das_cavernas no Instagram)

Imagine um bando de moços endinheirados, no meio de uma festa muito louca – pode ser a festa junina em Campina Grande, o réveillon de Copacabana ou, sei lá, a Copa do Mundo, em qualquer país. Agora imagina que, por coincidência, sua mãe está nesse evento, ou por que trabalha lá, ou porque mora na cidade e estava passando na rua, ou porque juntou seu dinheirinho e foi curtir a festa  já que também é filha de Deus. Agora, esses caras que estavam lá, curtindo, fizeram a inocente brincadeira de pegar sua mãe e ensinar frases em outro idioma para ela. Sabe como é engraçado ver alguém falando com sotaque? Então, só que os moços ensinaram sua mãe a dizer, em outro idioma, coisas sobre os órgãos genitais dela. E a brincadeira não parou aí: eles filmaram e colocaram na internet. O vídeo viralizou. E um belo dia você abre o computador e descobre que uns caras engraçados fizeram sua mãe dizer que os genitais dela eram rosa, ou roxos, ou pretos. E ela, simpática como é, tentou responder às brincadeiras de uma maneira fofa, rindo também. Ela nem fazia ideia de que estava falando essas coisas ali (e mesmo que tenha sido informada depois, faz alguma diferença? O vídeo já estava gravado).

Incomodou? Se você acha ok ver sua mãe ser induzida a falar a cor da própria vagina por um bando de caras na internet do mundo inteiro, nem precisa terminar o texto. Mas se dói pelo menos um pouquinho ver tamanho desrespeito, acho que a gente pode conversar um pouco mais. Estou falando, claro, do episódio dos brasileiros, que, na Rússia, filmaram uma moça russa dizendo frases em português sobre sua vagina. E já tem outro vídeo do mesmo perfil circulando por aí.

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Como sempre acontece, a internet se dividiu: tem gente que não achou nada demais, mas teve muito mais gente que se posicionou firmemente sobre a diferença de assédio e brincadeira. Eu sei que pode ser que os caras nem tenham pensado que aquilo seria ofensivo. É justamente aí que está o problema. Ali no rolê, todos empolgados e talvez um pouco bêbados, nem se ligaram que estavam ferindo a honra de alguém. E como internet móvel é essa terra de ninguém, postaram sem pensar no assunto. O erro dos caras não é brincar, não é a alegria, não é a bebida (disso, todo mundo gosta): o que é grave é não se colocar no lugar do outro.

Sabe quando você, cansado de dirigir há três horas num trânsito insano dá aquela avançadinha na faixa de pedestre para pegar o sinal verde e deixa quem está a pé esperando para atravessar? Você não está se colocando no lugar do outro. Sabe quando você senta no ônibus e finge que está dormindo, porque está cansado demais para ceder o lugar para aquela senhora com duas sacolas? Você não está se colocando no lugar do outro. E tem lugar que é difícil se colocar mesmo: eu nunca fui idosa, não sei como é ficar em pé no ônibus com mais de 60 anos… mas justamente por isso preciso levantar correndo. Se eu estou com um bando de amigos brincando com uma desconhecida, preciso imaginar se gostaria de estar no lugar dela. Pronto. Esse exercício simples resolve vários dos nossos problemas de civilidade e falta de educação. Se incomoda estar no lugar do outro, sai daí – essa brincadeira não é para você.

Um dos caras do vídeo, o engenheiro Luciano Gil lamenta a repercussão, segundo ele exagerada, do episódio. Ele diz que tem mulher e filho e eles estão expostos por tanto estardalhaço. Luciano, imagina só se sua mulher estivesse num vídeo falando a cor dos genitais dela, sem saber. Isso que é exposição, meu amigo. Um deles, Felipe Wilson, foi até demitido da Latam, onde trabalhava. A empresa não gostou da atitude e não quer um funcionário com esse tipo de atitude. Estou falando que pega mal… Uma jurista russa, Alyona Popova, fez uma denúncia e escreveu uma petição contra os atos machistas por violência e humilhação pública à honra e à dignidade de outra pessoa. A coisa ficou séria. Não é brincadeira mesmo.

Mas ainda tem gente entrando na discussão para dizer que não foi grande coisa. Minha colega Lia Bock pergunta o que acontece com os homens quando se juntam assim em grandes grupos. Eu não sei o que acontece. Mas sei que o caso dos sete brasileiros que achavam estar brincando com a russa levantou um alerta sério. E muito homem se pegou pensando no clássico e civilizado "e se fosse comigo?". Vou te falar que é o primeiro passo para ser uma pessoa melhor.

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).