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Luciana Bugni

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Não é mimimi: Ana Maria Braga usar peruca black power é racismo, sim

Luciana Bugni

24/05/2018 13h27

Parece brincadeira, mas é sério. Crédito: TV Globo

Uma moda diferente no cabelo das mulheres começou no Brasil, há uns três anos. Após décadas alisando os fios das mais diferentes formas (químicas ou não), as atenções se voltaram aos cuidados com os cabelos naturais, enrolados, cacheados ou crespos. O que parece simples para quem nasceu com o cabelo liso e só precisa sair do chuveiro que está pronta, é libertador para muita gente. Por anos, se perseguiu a estética dos cabelos lisos. Quando uma coisa é dita muitas vezes, acaba virando verdade e todo mundo passou a acreditar que cabelo bom é cabelo liso e cabelo crespo ou afro é ruim. E foi justamente isso que mudou há alguns anos. Ao aceitar o cabelo crespo como ele é, como fez a youtuber Kéfera, as mulheres se livraram da escravidão da chapinha e do alisamento, economizaram em progressiva e o resultado se vê nas fotos: elas ficaram muito mais bonitas e alegres com seus cachos a mostra.

O processo de voltar ao natural não é fácil. Quem fez alisamento químico, precisa esperar os fios crescerem, o que se chama transição capilar. Muitas optam por cortar bem curto (o termo em inglês para isso é big chop) para deixar o cabelo livre das químicas crescer natural. Uma libertação daquelas. Até a notícia chegar ao programa de Ana Maria Braga, finalmente, nessa semana. Lindo. Após séculos de opressão, finalmente a beleza das mulheres negras, tão marginalizadas, está na pauta! Que momento!

Mas acontece que para mostrar a beleza do cabelo afro, Ana Maria não convidou mulheres de cabelo cacheado ou crespo. Optou por ela mesma, mulher branca, usar uma peruca black power. E deu outra para o Loro José, que se fosse real e não um boneco, nem cabelo teria, pois representa uma ave. Hum… isso é um problema.

A mãe de uma amiga ficou brava quando ela reclamou da atitude de Ana Maria. Disse que não tem nada demais usar uma peruca daquelas. Que ficou bonito e que era uma homenagem.  Certamente a intenção da apresentadora não foi ofender ninguém. Mas não são os brancos que devem falar sobre ofensas nessa hora. São os negros que devem se posicionar. Se, após séculos de escravidão, agressão e injúrias que perduram até hoje, as negras são um parâmetro de beleza porque têm um cabelo que as brancas não têm, são elas que devem estar na TV para mostrar isso. Colocar uma peruca black para falar do cabelo black e esconder a mulher negra, que tem aquele cabelo natural, atrás das câmeras, é uma forma de preconceito, sim. E é tão velada que parece até natural. Parece que quem reclama está fazendo mimimi.

Existe até um termo histórico para isso: o nome é black face. A expressão era usada no teatro inglês do século 19, quando a escravidão ainda não tinha acabado em vários países. Atores brancos se pintavam com cortiça queimada e, com o rosto preto, encenavam estereótipos negros enquanto o resto da plateia, branca, ficava rindo. Imagina que ridicularizar o negro era comédia. Parece ridículo? Agora pensa que, quase 200 anos depois, ainda tem gente que acha engraçado tirar o negro de cena enquanto ri dele. Entende agora por que a peruca de Ana Maria Braga não é tão inofensiva assim? Uma mulher negra ali, representando o padrão de beleza que está sendo exposto, seria muito mais justo – e bonito.

Já basta quase não termos apresentadores de TV negros num país em que essa é a cor da pele da maioria. Já basta a polêmica da novela Segundo Sol: passada na Bahia, tem apenas um negro no núcleo principal e todos os protagonistas são brancos. Já basta o que, sabemos, os negros vivem todos os dias e é impossível para mim, branca, mensurar. Já basta o preconceito escondido nas expressões que viraram até comuns como "coisa de preto". A peruca black de Ana Maria, usada na melhor das intenções, traz tudo isso de volta. E só comprova que quase não saímos do lugar. Não é chatice. É que está errado mesmo.

Se você, branco, quiser saber um pouco mais do que pode fazer pela igualdade racial no Brasil, além de não ser racista, que é básico, clica aqui. A matéria (fantástica) tira a gente daquela zona confortável de achar que o que incomoda o outro é mimimi.

Tem também uma série incrível na Netflix, "Cara Gente Branca", que vale a pena ver. Nina Lemos falou do assunto aqui.

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).