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Luciana Bugni

Luciana Bugni

Afinal, ver a ruína de quem odiamos melhora nossa vida?

Luciana Bugni

08/04/2018 13h00

Odiar e desejar o mal do outro só fala mais sobre quem somos (Foto: Istock)

Você já deve ter visto uma história parecida. A sogra odiava a nora. "Essa menina tem piercing no nariz, na sobrancelha e na bochecha! Eu não criei filho, não paguei escola cara para ele casar com uma menina toda furada". Uns meses depois, por uma dessas voltas que a vida dá, o namoro terminou. A sogra entrou em festa, comentou com as amigas. Estava livre da garota toda furada! Uns dias depois, quando a euforia passou, sentiu um negócio meio esquisito. Não era tristeza, mas uma coisa aqui no peito. O filho quase não se interessava por nada. Andava cabisbaixo. Olhar vazio. A namorada nova, que era uma gracinha de menina, parecia não empolga-lo. "Ih, será que eu era feliz e não sabia?", pensava mulher sem entender o sentimento.

Teve também o moço que não ia com a cara do chefe. Era piada demais, era cobrança demais, era um jeito de liderar do qual ele discordava. "Ou a gente ri ou trabalha", ele pensava. Passava o tempo condicionando a felicidade ao dia em que o chefe fosse demitido. Comentava com a mulher: "um dia ele roda e eu vou mostrar todo meu potencial profissional". O dia chegou e o chefe caiu, num desses cortes frequentes nas empresas. Ele levou a mulher para jantar fora e deixou pedir vinho. "Aquele maldito não me bloqueia mais a criatividade!". Semanas depois, o chefe novo chegou, tempos tranquilos seguiram sem cobrança nenhuma.  A criatividade, sem o estímulo, foi minando. Ele chegava cabisbaixo do trabalho. Uai, tudo não ia melhorar quando ele rodasse?  Parece que não era bem o chefe o problema.

Uma conhecida tinha uma vizinha dessas que tocava campainha pra falar dos outros. Além disso, na casa dela era um entra e sai de gente esquisita. E barulho de madrugada. Aquilo lhe tirava o sono. Virou obsessão: "No dia em que minha vizinha sair do prédio, a vida vai melhorar!" A alegria voltaria a reinar, era só aquelazinha sumir. Um dia: surpresa! O caminhão da mudança na porta do prédio e a mulher estava partindo para a Venezuela. Glória! Mas não é que depois da animação toda, baixou o astral? Parece que a vida dela não decolou, que não era a vizinha que atravancava o progresso. "Ué… será que eu devia ter perdido tanto tempo odiando tanto?", ele me perguntou confusa.

Foi assim no dia em que supostamente devia acabar a corrupção no Brasil. Quando passou a euforia, as pessoas andando na rua como se nada tivesse acontecido. "Mas a coisa não ia melhorar?", um perguntava para o outro. Um gosto amargo na boca.

– Falem por vocês, eu estou muito feliz e vingado!, gritou alguém na outra calçada.

Tá mesmo?

 

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).