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Luciana Bugni

Luciana Bugni

Como Doria: a gente promete tanta coisa e não cumpre que parece político

Luciana Bugni

03/04/2018 05h00

Ops! (Foto: Jales Valquer/Fotoarena/Estadão Conteúdo)

Você sabe que o pessoal de São Paulo está meio pistola (tem um glossário de interpretação de gírias aqui) com o fato do prefeito eleito ter jurado duas coisas: que não era político e que cumpriria o mandato até o fim. E aí, um ano e três meses depois de governo, ele esqueceu duas coisas: que não era político e que cumpriria o mandato até o fim. O paulistano está até acostumado com isso: é raro termos um prefeito que passa os quatro anos no comando dessa selva de pedra.

A gente também convive bastante com promessas que não serão cumpridas não só dos políticos, mas também de nossos chefes, de nossos cônjuges, filhos e de nós mesmos. Toda semana todo mundo jura que segunda-feira começa um detox, vai cortar os doces, tomar menos Coca-cola… e nunca cumpre. O que tem de gente prometendo que vai beber menos, que vai gozar fora, que vai parar de fumar… vixe.

E a criançada? Vai estudar mais História no próximo bimestre, vai ler os livros solicitados esse ano e em dezembro não fica de recuperação de jeito nenhum… Vai jogar menos videogame, usar menos o celular, lavar o próprio prato e nunca, de jeito nenhum, jamais deixar o xixi respingar na porcelana de novo. Ou se acontecer, vai limpar. Eu fico lá só ouvindo. Sei.

Eu mesma prometo pra mim mesma um milhão de coisas que não cumpro. Já paguei academia sem ir. Garanto toda semana que vou renovar a carteira de motorista que está vencida há dois anos e não vou – sigo feliz andando a pé e de transporte público. Toda semana digo que me portarei como uma lady e farei as unhas, como se espera de uma menina bem apresentável e, bem… a última vez que passei perto de um esmalte  foi no Natal.

Digo que farei a declaração de imposto de renda antes de qualquer outra pessoa e quando vejo tcharan: é o último dia. Sou dessas, prometo e não cumpro. Você também.  Todo ano, quando passa a Páscoa, que minha mãe me ensinou que é renovação, eu começo tudo de novo: vou renovar a carteira de motorista. Juro que não coloco açúcar na boca. Farei os exames, que estão todos atrasados. E vou fazer as unhas! Talvez.

Mas, claro, nunca cheguei ao ponto de prometer algo para o meu chefe e não cumprir. Reservo-me o direito de decepcionar apenas familiares e amigos. Profissionalmente a gente cumpre prazo, demanda, tudo quietinho. Não reclama alto. Só mostra eficiência. E não abandona barco, não. E quando são os políticos que nos prometem, a coisa fica meio diferente. Porque a gente é chefe deles, né? Somos nós aqui, meros cidadãos, que pagamos o salário deles.

Então quando um político, qualquer um deles, não faz o que havia lhe prometido, pense que é um funcionário seu, para quem você havia pedido uns xerox, uns relatórios e que, na hora de entregar, responde: "não fiz porque achei que visitar minha avó seria mais importante". E não dá mais satisfação. É para ficar meio pistola mesmo, né?

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).