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Luciana Bugni

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Seu chefe é machista? Eliana deu aula de como sair dessa encrenca

Luciana Bugni

2006-03-20T18:05:00

06/03/2018 05h00

Eliana e o patrão Sílvio (Foto: Divulgação SBT)

 

Imagine que você está em uma festa promovida pela sua empresa, no palco, prestes a receber um prêmio pelo seu trabalho. Imagine que você escolheu uma roupa adequada para a ocasião. Mas seu chefe, um senhor de mais de 80 anos, resolveu aproveitar a oportunidade para fazer piada. Na tentativa de ser engraçado, ele diz que a roupa não é "decente" ou que "se fosse minha mulher eu não deixava sair assim de casa". O que você faz?

Tudo isso aconteceu com Eliana no Troféu Imprensa, que foi ao ar no domingo. Silvio Santos coleciona expressões machistas há tempos. Ele tem 87 anos, viveu em uma época em que nada disso era contestado. Acontece que as coisas mudaram, mas ninguém disse isso para ele (afinal, ele é o patrão) e Silvio ficou parado no tempo. Ele ainda acha engraçado constranger a mulher. Tudo isso ganha um tom mais dramático ainda quando lembramos que ele tem seis filhas (de quem, além de pai, também é chefe) que foram criadas segundo o padrão machista dele. Difícil para as filhas contestarem ou explicarem alguma coisa, se não aprenderam em casa que aquele comportamento não é o ideal. Difícil ainda mais sendo que ele é Silvio Santos: o estereótipo de "não estou nem aí" virou marca registrada do apresentador, uma das pessoas mais famosas do país. A liberdade de dizer o que pensa virou desculpa para ser mal educado na velhice – e ser aplaudido por muita gente.

Pois bem, Eliana no palco do Troféu Imprensa no domingo à noite. A atração foi gravada três dias antes e ela podia, claro, ter feito Silvio engolir o que estava dizendo com "o que eu visto não te diz respeito", "meu marido sabe que não pode interferir no que eu visto" ou "minha roupa não lhe dá o direito de ser mal educado". O estúdio estava cheio de jornalistas, a cena seria cortada na edição, mas o burburinho valeria as notícias da semana da mulher.

A apresentadora, porém, escolheu outro caminho. Ao responder educadamente o questionamento do patrão sobre a decência de sua roupa, ela emendou um discurso informativo sobre a importância de amamentar. Desviou o assunto de seu vestido (lindo, aliás) para dar um serviço importante, como se o decote profundo estivesse ali para chamar atenção para o tema e talvez de fato estivesse. "Quero dizer a todas as mulheres do Brasil que amamentem. Que não há coisa mais preciosa para nossos filhos, o maior bem que a gente pode dar é o leite materno. É barato, é prático, sai quentinho e não dá trabalho. Isso é fundamental para todas as crianças do Brasil e no mundo. Na correria do trabalho, o leite acaba secando e é muito importante para nossos filhos", ela disse. Silvio teve que mudar de assunto. Ela frisou que a casa dele é cheia de mulheres e o recado estava dado. Com muita fineza, claro, porque desbancar a fala do chefe no palco, no dia da festa da firma, não é a melhor estratégia para alguém que acabou de voltar da licença maternidade.

E ela ainda emendou com outra lição: "É nosso dever criar filhos melhores para o mundo. Já que o mundo não está tão bom assim, nossos filhos podem transformá-lo. É nesse momento, na primeira infância que a gente tem o dever de educar", disse. Silvio concordou. Que nossos filhos saibam que não se constrange as mulheres no palco do Troféu Imprensa, nem no cantinho do escritório, nem no ônibus, nem em casa. Talvez a solução seja mais Eliana e menos pé no peito: passar o recado sorrindo, usando o decote que a gente quiser. Exige uma dose extra de paciência – o que mais tem no mundo é Silvio Santos – mas que dá resultado, dá.

Só ela quer ser linda? (Foto: Divulgação SBT)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).