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Luciana Bugni

WhatsApp: é tanta briga que a onda agora é sair dos grupos, já percebeu?

Luciana Bugni

02/02/2018 05h00

A gente brigando no WhatsApp em vez de ir para o bar: por quê? (Foto: iStock)

 

Quando começou, eu nem percebi que era uma tendência. Uma mensagem despretensiosa de uma amiga dizendo que amava todos ali, mas que o grupo do WhatsApp não estava mais fazendo sentido para ela. "Fulana saiu do grupo". Foi depois de uma briga por causa de um meme. Briga que nunca existiria, aliás, na vida real, quando a gente ainda se via, se abraçava, ouvia a voz do outro. 20 anos de amizade balançados por causa de um meme. Os que ficaram no grupo, meio surpresos, meio envergonhados, não falaram mais do assunto.

Depois foi um amigo, em outro grupo. Mandou uma mensagem antes explicando que queria ficar mais offline e foi-se embora. Muitos inbox depois, entendi seu ponto: "a gente fica aqui se falando todo dia, mas eu não vejo vocês há meses". Corretíssimo. É um tal de "bom dia, grupo", mas encontrar que é bom, nada. Miguel mandou uma foto que pintou o cabelo de azul há um tempo — já está verde (eu vi nos stories do Instagram) e a gente ainda não se viu. Larissa está grávida de seis meses e eu ainda nem toquei em sua barriga.

Aí começou a epidemia. No meio das combinações para um bar despretensioso numa sexta-feira, um integrante do grupo lançou uma discussão de futebol. Muitas linhas depois, alguém conseguiu voltar ao assunto que importava, o boteco. "Que horas?" Aí veio outro e disse que agora que Lula foi condenado acabou a corrupção no mundo. A última frase que um deles disse, antes de sair do grupo, foi "depois a gente tira o resto, né?" E lá se vão mais mensagens no inbox para convencê-lo a voltar para a galera e conseguirmos combinar o happy hour. Falhamos. Na sexta, cada um ficou em sua própria casa.

Desde então, em cada um dos 22 grupos de que participo ativamente (sim, eu contei), cada dia é um que sai. Eu, que não tenho coragem para tanto, fico ali invejando todo mundo. Como será a vida dos que não têm grupos de WhatsApp? Será que eles se veem? Será que telefonam uns para os outros e dizem: então, vamos nos encontrar no boteco de sempre, às 20h? Ainda existe boteco de sempre para quem não tem grupo de WhatsApp?

E mais: ainda existem amigos? Por que é tanta treta por causa de política, de futebol, de meme… é tanta opinião, é tanta intolerância com a opinião do outro, é tanto descaso, é tanto silenciar por um ano que o que menos tem no WhatsApp ultimamente é amizade nos grupos. Será que o aplicativo que revolucionou a comunicação e as relações virou um grande Orkut, onde o que se vê é uma mensagem de bom dia que sua avó mandou com tulipas ao fundo? Passar um café e conversar sobre coisas da vida ninguém quer? Saudade de quando grupo se reunia em volta de uma mesa de lata e a reclamação mais séria era porque não queriam servir a saideira…

Sobre a autora

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo”, na “Contigo!” e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso para atravessar a era digital com um pouco menos de drama. Sororidade e respeito ao próximo caem bem pra todo mundo.