Luciana Bugni

O corpo pra ir à praia é o seu: 2 mulheres ensinam a se sentir bem no verão

Luciana Bugni

12/01/2018 06h00

Desde que me entendo por gente, vivo cercada de revistas. Isso muito antes de começar a fazer revistas e suplementos femininos. Por isso, demorei para me dar conta dos absurdos que vinha lendo e escrevendo verão após verão. “Como ficar com o corpo perfeito para a praia” – como ninguém percebeu que essa frase tem um erro elementar? Para ter um corpo para a praia só são necessárias duas coisas: ter um corpo e ir à praia! “Fique magra para colocar biquíni”: onde foi que está escrito que gorda não pode colocar biquíni? Eu sei onde está escrito. Mas será que essa regra faz algum sentido?

Lógico que não cheguei a essas conclusões sozinha. Mulheres maravilhosas que me cercam me abriram os olhos para ver que não há problema nenhum em ter um corpo fora do padrão celebridade/blogueira fitness e estar de boa com isso. E outra conclusão triste, a partir da conversa com elas. A preocupação das moças na praia é muito mais com o que as outras mulheres vão achar delas do que com o que os homens vão pensar. Nas conversas que tive, o pensamento é quase unânime: não só os homens julgam.  Mulheres também julgam celulites e gordurinhas sobrando, especialmente as conhecidas! Isso faz algum sentido? Nenhum! Então por que continuamos por esse caminho há tanto tempo?

Conversei sobre o assunto com duas mulheres que depois de uma vida escondendo o corpo e evitando a praia, decidiram se libertar. Vai ter barriga aparecendo, sim. Vai ter celulite, estria e tudo mais que for natural. O legal de ler o relato delas é que eles provam que tudo isso é normal, que é apenas um corpo, como o de todas as outras. E, principalmente, que há coisas mais legais de se fazer na praia do que ficar pensando no que estão achando embaixo do guarda-sol ao lado.

“Tem coisa mais legal para fazer na praia do que pensar no meu corpo”

Tainá Goulart, jornalista e cantora, precisou fazer 27 anos e ir a uma praia deserta para perceber que podia se sentir bem com a roupa que fosse, na praia que fosse (mesmo que estivesse lotada). “Antes eu me sentia como se fosse um alvo de tiro. Sempre senti que as pessoas estavam olhando pra mim e pensando: ‘nossa, que flacidez, que celulites gigantes, que perna gorda pelancuda’”, conta.

Depois de uma vida toda escondendo o corpo, Tainá foi a uma nutróloga, descobriu predisposição para uma série de doenças e começou a cuidar da alimentação por conta da saúde. “Foi aí que reverti o pensamento de estética para a saúde. E pensei: por que estou com vergonha? Hoje eu me sinto maravilhosa na praia porque foco em coisas mais legais do que se preocupar com meu corpo. Tipo: ‘Vou ficar quanto tempo? Vamos jogar um frescobol?’ A gente aproveita tão mais quando não foca em coisas idiotas!”, diz.

Tainá Goulart, numa praia deserta: linda, sim (Foto: Arquivo pessoal)

Mas claro, tem a questão de como as pessoas olham. Tainá já superou e diz que nem liga: “Não sinto mais, mas sei que rola muito olho torto entre mulheres. Eu acho que a gente precisa parar de se julgar e julgar as outras também. Aquele corpo é o corpo dela natural. E o que eu tenho a ver se está no padrão ou não?”, ela diz. “Ser natural… ser você com suas características. Pra que ser igual? Pra que não curtir uma praia por conta da pressão de estar dentro de um padrão? Vamos olhar pra gente mesma com mais amor, com mais afeto.”

Tainá de biquíni e de boa (Foto: Arquivo pessoal)

 

“Caminhei até o mar e pensei: como isso é libertador!”

A designer e youtuber Thalita Gama, 22, me contou essa história: “A memória mais forte que eu tenho é de que sempre que ia à praia, saía sem tomar café da manhã, pois na minha cabeça a minha barriga ficava sequinha por eu estar sem comer há muitas horas, mesmo se estivesse morrendo de fome. Quanto mais eu me aproximava da adolescência, mais aumentava a minha sensação de obrigação em ter um corpo escultural na praia, pois o corpo de muitas meninas próximas da minha idade eram assim e estar de biquíni não parecia uma dificuldade pra elas, afinal eram magras. Ao por os pés na areia, eu já me sentia observada por todos e com o dever de parecer uma garota bonita na praia, mesmo se na verdade ninguém estivesse me olhando. Eu ficava por um bom tempo vestindo saída de praia, até chegar a ponto de sentir calor demais e eu ter que tirar. Me recordo de tirar a roupa rapidamente, me sentar e tampar a barriga com a peça. Quanto menos vissem o meu corpo de biquíni, melhor. Levantar pra ir andando até o mar? Pra mim era quase como uma passarela do medo… eu me preocupava com o que as pessoas próximas ao meu guarda-sol iriam pensar, principalmente se houvessem meninas na minha idade e que muitas vezes pareciam fofocar sobre mim enquanto eu tomava sol com uma peça de roupa tampando a barriga fingindo estar tudo bem. E toda vez era assim: eu me sentindo na obrigação de agradar os outros, sem nem pensar em mim. Trocando um momento de lazer e diversão por uma cobrança que só acabaria quando eu tirasse os pés da areia”.

Quem aguenta uma pressão dessas? E a gente sabe que não é uma história isolada.

Thalita na água de coco, feliz da vida (Foto: Arquivo pessoal)

Thalita continuou contando. “Com o tempo, passei a olhar mais pras mulheres consideradas como fora do padrão em um dia de praia: sem biquínis fio-dental e com a barriga à mostra mesmo não sendo magras. Antes eu pensava que perto delas eu até estava bem! Até que me dei conta de que eu estava totalmente errada: elas estavam ali sendo como elas realmente são, aproveitando o dia sem medo e sem tirar o sorriso do rosto, independentemente do que estariam pensando delas. Eu é que não estava nada bem, pois estava me privando de muitas coisas pela aprovação alheia. Ter essa visão do meu próprio pensamento foi transformador. Além disso, conhecer histórias de outras mulheres consideradas fora do padrão pela sociedade me fez enxergar a beleza com outros olhos e consequentemente passei a gostar mais de mim e do meu corpo. Não foi de imediato, mas a cada dia eu dou um novo passo pra me sentir bem comigo mesma! Agora me sinto uma mulher igual a todas as outras. Antes só o que eu achava bonito era parecer magra e estar impecável vestindo um biquíni. Hoje acho bonito me ver aproveitando um dia de sol, mesmo tendo uma barriga flácida, uns pneuzinhos, estrias e celulites. Chego à praia e me sento com a postura bem relaxada, mesmo que isso faça a minha barriga se dobrar em duas partes. Uso o biquíni que eu gosto e com que me sinto confortável, não uso o modelo que vá tampar o meu culote ou fazer com que o meu quadril pareça menor. Se vão estar olhando pra mim ou não? Isso é só um detalhe… prefiro que olhem pra uma pessoa que está feliz e tranquila do que uma pessoa bitolada e com medo do que vão pensar. Este ano me permiti estar assim na praia, sendo quem realmente sou e não como gostariam que eu fosse. Caminhei até o mar pela primeira vez sem medo e pensando: como isso é libertador!”.

Lógico que ela percebeu os olhares castradores. “Cheguei a sentir muitos olhares vindo de mulheres, principalmente da minha idade e mais velhas. Algumas me observavam andando desde longe e não tiravam os olhos, mas isso não me incomodou. Pra algumas talvez tenha causado estranheza, mas acredito que pra outras tenha sido um exemplo de representatividade, pois eu estava ali querendo o meu espaço como qualquer outra mulher. Minhas amigas me surpreenderam positivamente. Estar junto de mulheres que pensam como você ajuda muito a tornar essa experiência desafiadora como algo leve e gostoso. Antes eu dizia: ‘a minha barriga tá enorme, né?’ Hoje nem cogito fazer essa pergunta. Não me sinto sendo cobrada por elas, não me sinto tendo que ser melhor ou que atingir alguma expectativa. Uma vez comentei: ‘Nossa, olha o tanto de estrias que eu tenho!’ E sabe o que uma delas me disse? ‘Eu também tenho várias. Crescer, engordar e emagrecer deixam essas marcas mesmo, é natural!’. Ver que convivo com mulheres que encaram seus corpos numa boa e que também gostam deles me surpreende e me deixa muito feliz. Aí fiz um post nas redes sociais com minha foto de biquíni para dividir o que estava sentindo com mais mulheres. Muitas reagiram positivamente, mas parte delas veio falar comigo, me mostrando o quanto esse processo é realmente difícil. Ao mesmo tempo em que elas admiravam a minha experiência, me disseram que não conseguem fazer o mesmo. Não se sentem satisfeitas com seus próprios corpos e não conseguem encarar um dia na praia como encarei. Isso me fez refletir que de fato muitos passos ainda precisam ser dados. Acredito muito na importância de mais mulheres mostrarem e falarem sobre os seus corpos. Vamos expor o que é real. Mostrar que tudo bem sermos como somos. Ninguém é igual a ninguém. Cada mulher tem sua história, tem um tipo de genética, pensamentos e comportamentos diante diversas situações… não faz sentido existir um padrão de beleza que dite as regras e que queira mudar tudo isso. Torço para que mulheres se amem ao se olhar no espelho. E que saibam amar a próxima. Não somos inimigas e não estamos competindo!”, diz.

Tem dobras, sim, mas por que estamos falando disso? (Foto: Arquivo pessoal)

 

Espero que ler a história delas faça mais mulheres se sentirem bem como são. E, como disseram as meninas que eu entrevistei: “Nós não somos inimigas. Vamos nos amar mais!” Se você é do time que fica sentadinha na praia reparando na celulite alheia — coisa que a gente faz, sim –, é hora de colocar uma mão na consciência e a outra em uma água de coco e se preocupar com o que realmente importa.

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre dois adolescentes, um bebê e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita comerciais na TV, conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e a revista “AnaMaria”. Já trabalhou no “Diário do Grande ABC”, “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

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