Luciana Bugni

A única coisa que une os vizinhos é o futebol

Luciana Bugni

17/11/2017 08h00

Você assiste ao jogo sozinho em casa, mas a vizinhança toda está com você (Foto: iStock)

Cidade grande, ninguém sabe o nome do vizinho, mas todo mundo sabe para que time o danado torce. Chega segunda-feira, o elevador vira estúdio de mesa redonda.  O santista do 96 sempre diz alguma coisa do tipo: “Tá feliz, hein, corintiano…” com um sorrisinho maroto e engata um comentário maldoso sobre erros de arbitragem. O são-paulino do 8º andar manda uma memória de jogo antigo e compara finalizando com um “naquele tempo era melhor”. Há meses, ele paga a multa por manter a bandeira do Tricolor na varanda, algo que fere as regras do condomínio. Disse que é promessa pra não cair. “Mas não tem mais risco”, alguém disse para ele. “Enquanto não acabar o campeonato, a bandeira não sai de lá.”, respondeu categórico. O porteiro diz pro palmeirense do 67 que quem se deu bem esse ano na sua casa foi o irmão gremista. “Lá é engraçado, cada um de um time. O pai ainda é mineiro atleticano”, ele comenta com o síndico flamenguista que não tira um boné rubro-negro. 

O próprio Neto, em seu já clássico chilique indignado com a má fase corintiana na reta final do campeonato, perguntava o que ia dizer para o porteiro. “Vocês vão perder o campeonato para o Palmeiras, aí sabe quem vai aguentar? Eu! No meu condomínio os caras vão gritar: ‘Chupa, Neto’”. Memerável, virou até funk. Se paixão pelo time é coisa séria, dar satisfação na vizinhança é mais importante ainda.

Ninguém sabe o nome de ninguém, mas na segunda-feira de manhã todos são íntimos. Sabem de cor as paixões um do outro. “O são-paulino nunca mais desceu pra piscina”, eu escutei na academia. “Também, com o time nessa draga… vai conversar do quê?”, respondeu o outro preocupado. Morador de prédio em grandes metrópoles não tem ideia da profissão do cara que mora no apartamento do lado, mas se o assunto é futebol, são melhores amigos de infância.

E quando o jogo é decisivo, a intimidade se dá entre condomínios. Durante a Libertadores, o palmeirense do bloco B fez um escândalo à meia-noite de cada jogo em que o Palmeiras ganhava. Tocava cornetas, berrava, tocava buzinas. Acordava bebês, acordava velhinhas, acordava o trabalhador de bem e uniu os outros torcedores (que sentiam sono e inveja) numa forte corrente para que o Palmeiras caísse logo. Assim, os outros que já estavam fora poderiam dormir em paz. “Ih, hoje é quarta, lá vem aquele palmeirense do B”, diziam no elevador. No dia que o time saiu da competição, o jogo inverteu: ninguém dormiu porque a turma do bloco A se amontoava nas janelas para provocar o palmeirense do B. Futebol não tem lógica. Não espere coerência dos apaixonados.

Nessa última quarta, do apito final às 23h45 até mais de 2h da manhã de quinta, os moradores dos blocos A e B e os dos prédios vizinhos se revezaram no “é campeão” nas janelas e varandas. As crianças capricharam no “Vai, Corinthians”. Dos apartamentos dos outros torcedores, o que se ouviu foi um silêncio respeitoso. “Tava bonita a festa dos caras”, me disse o palmeirense do B na garagem no dia seguinte. Eu concordei meio resignada: “É, não deu pra vocês. Esse ano ninguém tava com muita vontade de ser campeão, né?” “Nem para vocês, mas tudo bem. Ano que vem tem mais”, ele respondeu antes de entrar no carro. Depois de uma noite inteira de muito “chupa” e “é campeão”, a vizinhança acorda toda meio conformada, esperando o próximo ano. 

O conformismo do palmeirense me lembrou meu pai no auge dos anos anos 90. No jogo de ida, vitória verde, o vizinho palmeirense soltou rojões no quintal praticamente dentro de minha casa. “Chupa, Gambá!” e “Dá-lhe, porco!”, ele gritava no nosso quintal. Meu pai se segurava dentro de casa, minha mãe dizendo “peloamordedeus, não me vai arrumar briga”. Ânimos exaltados, uma semana para o jogo de volta. Sete dias depois, Corinthians ganha e leva a taça. Meu pai desce as escadas do sobrado quietinho, e chama no muro bem baixinho: “Palmeirense, ô, palmeirense!” O vizinho sai meio assustado com a intimidade cordial. Então meu pai diz, como quem pede uma xícara de açúcar: “Sobrou rojão aí?” 

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre dois adolescentes, um bebê e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita comerciais na TV, conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e a revista “AnaMaria”. Já trabalhou no “Diário do Grande ABC”, “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

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