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Você não está sozinha: falar sobre o relacionamento abusivo é o começo

Luciana Bugni

03/11/2017 08h00

Clara, na novela: uma solidão que a emudece (Foto: Globo/ Raquel Cunha)

 

Clara (Bianca Bin) está em um restaurante com o marido, Gael (Sérgio Guizé), e chega um garçom que é um velho conhecido. Eles se cumprimentam carinhosamente e o marido olha ressabiado. Ao chegar em casa, ele pergunta de maneira ríspida se a mulher tem alguma coisa com o rapaz. Ela nega. Ele lhe dá um tapa que a faz cair no sofá. Continua batendo. Esfrega umas revistas que estão sobre a mesa no rosto dela. Empurra até que ela cai da escada.

Mais tarde, no hospital, o pavor está nos olhos da personagem. Diante da possibilidade de denunciar o marido, ela se retrai ainda mais, como se não quisesse que ninguém soubesse o que aconteceu de fato.

Do lado de cá da tela, assistindo a "O Outro Lado do Paraíso", ficamos atônitas: por que essa mulher não denuncia o marido? Vontade de protegê-lo? Talvez. Esperança de que ele mude o jeito violento e o casamento seja "normal"? Pode ser. Mas quando a cena terminou, eu, que tremia, só pensava em um sentimento: vergonha.

Vergonha de amar um homem violento. Vergonha de se sujeitar àquela situação. Vergonha de fazer de tudo para que ela não tenha surtos. Vergonha de ter esperança de poder levar uma vida melhor com ele. Vergonha de contar para as pessoas, que vão julgá-la. Vergonha de se expor.

O UOL Estilo fez uma matéria esta semana que pergunta por que as mulheres não denunciam as situações de violência doméstica. Segundo a reportagem de Daniela Carasco, uma das coisas que impede as vítimas de falar é o olhar da sociedade que ainda julga as mulheres que permanecem em um relacionamento abusivo. "Elas sentem medo de que o agressor volte a agir de maneira ainda mais violenta, diante do registro da ocorrência ou separação, de perder a guarda dos filhos ou fazê-los sofrer, de ficarem desamparadas financeiramente. Isso sem falar na vergonha, falta de confiança nas instituições de amparo e do risco de descrédito. E o principal de tudo: elas acreditam que ele mudará."

É fácil do sofá de onde estamos vendo a novela julgar a personagem de Bianca Bin. "Ela continua com ele porque é burra", diz alguém. "Ela gosta da vida confortável que leva", afirma outro. "Gosta de apanhar", logo surge alguém para falar. Não. Ela se sujeita àquilo porque não vê alternativas. Extremamente solitária, ela não pode conversar com ninguém sobre o assunto não por ser burra, ou por gostar de apanhar — por não saber ser diferente. E não é só questão de apanhar, não. Frases depreciativas, e-mails agressivos, mensagens de texto com ameaças são formas de violência que muita gente tolera porque não sabe dar um basta.

Mais de 50 mil mulheres ligaram para o 180 no primeiro semestre do ano passado. E todas as outras que não ligaram como a mocinha da novela? O que podemos fazer por essas mulheres? Eu diria que ouvi-las. Dizer que a gente as entende, por mais difícil que seja para quem está de fora entender alguém que ama um homem violento. Eu queria dizer a todas elas: a gente entende vocês. Conte para alguém de confiança o que está acontecendo. Dizer para outra pessoa faz com que você veja que talvez esteja cometendo alguns absurdos em nome do amor. Existe uma saída. Deixe essa vergonha de lado e fale sobre isso. A solução depende muito da sua coragem. E você não está sozinha. Vou repetir: você não está sozinha.

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

Luciana Bugni