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O que acontece com meu filho se ele brincar de boneca?

Luciana Bugni

27/10/2017 08h00

Brincar de casinha é problema para você? E cuidar da sua casa? (Foto: Istock)

Uma amiga chegou com o filho na escola no dia de levar brinquedo e acabou entrando para conversar com uma professora. Quando entrou na sala, o menino foi direto no brinquedo de uma amiguinha: uma Ariel, aquela sereia da Disney, quase da altura dele. "Chamou até minha atenção quando entrei aquela boneca grande com um cabelo tão vermelho", disse ela. Enquanto ela conversava com a professora, o filho, que tem 4 anos, conversava com a amiguinha e passava a mão no cabelo da boneca. Logo, chegou outra mãe e perguntou: "Nossa, ele gosta de brincar assim?". Ela nem entendeu direito a pergunta. Respondeu que ele gostava de brincar. "Mas assim?", ela insistiu. Aí então ela percebeu que a mãe estava incomodada com o fato de um menino estar passando a mão no cabelo de uma boneca. Meninos não podem brincar dessas coisas, diz o antigo senso comum. Ela apenas respondeu outra vez que ele gostava de brincar. Quando olhou de novo para o filho, ele estava correndo atrás de um amiguinho com uma espada na mão, pra brincar de lutinha. Uma brincadeira de homem, né? E a outra mãe ficou mais tranquila.

Essa história aconteceu no ano passado e eu sempre me lembro disso quando escuto conversas sobre que brinquedo é certo para meninos e para meninas. E o que as outras mães têm a ver com a maneira como nossos filhos brincam? E, se o menino brincar com a boneca, o que pode acontecer com ele quando for adulto? Ele pode acabar pegando bebês no colo? Que perigo!

A escola do filho de outra amiga mandou esse ano um comunicado sobre o evento de dia das crianças. Segundo a coordenação pedagógica, naquela semana os meninos deveriam levar carrinhos e as meninas, bonecas. Os meninos seriam agrupados num lugar com uma grande pista de carrinhos. E as meninas, em outro lugar, onde brincariam de casinha. Ela estranhou. Peraí, meu filho tem que levar um carrinho? E se ele quiser levar um quebra-cabeça? E se ele quiser brincar com as meninas? A coordenadora da escola deu uma resposta de quem ainda está presa nos anos 1950 e não em 2017: "se ele quiser brincar com as meninas, a gente deixa, mas a atividade pensada para os meninos é na pista de carrinhos". Repito: o que pode acontecer com um menino que brinca de casinha? Ele pode cuidar da própria casa quando for adulto? Que perigo! E com uma menina que brinca de carrinho? Ela pode acabar, sei lá, dirigindo carros? Nossa!

É importante a gente, mãe e pai, contestar esses hábitos antigos. Para que as futuras gerações não precisem ficar reclamando que "meu marido não tem jeito com crianças!", "ele não ajuda em casa" ou "minha mulher só pensa em comprar roupa", "ela reclama que eu não sei fazer nada". Está na nossa mão, não está?

No dia da brincadeira sexista, o filho da minha amiga não foi para escola. E passou o dia na casa da avó brincando com o que ele quis. 😉

 

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

Luciana Bugni